"Fuga Vertiginosa" foi meu segundo livro de poemas. Contendo poemas elaborados entre 2008 e 2009. A capa é uma aquarela de Claudia Cunha, inspirada numa paisagem de Caatinga.
Verde e Azul
Prólogo
No início não tinha nada
suas almas flanavam sobre
as águas, os céus não tinham
estrelas, nenhuma luz
lumiava as perdidas faces
que não conheciam calor
da aurora ou perfume úmido
das claras manhãs gorjeadas
com pássaros, luz, frescor,
trazendo vontade do vácuo
preencher, do vazio completar,
finar solidão infinita
Diálogo
E foi numa
aurora quando
vi a luz dos
dois olhos
fitando a
longínqua flor,
beleza
indizível, doce,
o braço
cruzado, mão
direita
tocando o braço
esquerdo, carícia
irmã,
possível
desenho em lábio
sem jaça de
um sorriso.
A flor do
infinito que
minha visão
extasiou
de tal
formosura era
que tudo ao
redor deixou
de ser e
ficou tão frio,
tão frio, que
meu braço destro
cruzou-se por
sobre o braço
esquerdo em
carícia irmã,
que gerou um
élan, saudade
do toque,
carinhos idos.
Do nada
surgi, da escura
matéria,
primeiro vieram
meus braços,
que te abraçaram,
primeira
função dos braços,
que até ali
nada faziam
além do que
já era devido:
matar e levar
à boca,
lutar e dizer
adeus.
Por sobre
teus braços, pele
macia, qual
serpente, píton,
captando com
língua odores
tão doces, de
flor distante,
carinho
roubado à irmã.
Do escuro
veio meu lábio,
roçando de
leve o ouvido,
desceu, já em
calor, à nuca,
perfume
inalado tênue,
suave amoroso
hálito.
A pele do
colo intuiu
sorriso só
por mover
o lábio, que
veio da fina
matéria
escura, que
deu cócegas,
que aqueceu,
cresceu a
vontade de
saber o
conceito do que
em mim de
repente criou.
Agora com
todo corpo
do breu
renascido, exposto,
corpos
unidos, quentes,
ternura
vazando em fluxo,
mundo
criando-se
inteiro, as
flores todas,
as luzes, ar,
céu, manhã,
café da
manhã, sabores,
os pássaros
todos, vôos,
élan de
rebroto novo.
Andavas nas
nuvens, via
tua imagem
oculta entre
os flocos
gelados nas
alturas, o
céu tão azul,
tão azul,
eras tu azul todo,
celeste que
abrasa, mas
o abraço é
frio, pois mesmo
azul, mais
distante estavas
do que no meu
sonho, brumas,
um céu
salpicado de nuvens.
Oculto nas
nuvens, via
teu andar
displicente, via
tuas preces
aos céus lançadas
e eu me
apoderava delas
e dos teus
sonhares todos
e dos teus
desejos todos,
comia-os,
levando-os co´as
duas mãos à
mi´a boca aberta
enquanto
tritura sonhos,
desejos e
preces, dentes!
Pequenos
pedaços deles
caíam no
dossel imenso
da mata
contínua até
a curva da
Terra, a cada
pedaço uma
flor criava,
teu espírito
era a vida
da mata
inteira verde,
tapete
felpudo em que
meus dedos
corriam por entre
papilas
floridas tuas.
Floresta e
Céu unidos,
azul-esverdeado,
mar
a Terra nua
azul com suas
cobertas em
verde casto,
água-marinha,
esmeraldas.
Uma onda
gelada contra
Meu corpo
rochedo veio
Rocamboleando
mi´a vida,
segredos
mostrados públicos
jogada na
areia da praia
sequei ao
sal, ao sol, sozinha.
Não estavas,
covarde, lá onde
meus restos
dispersos eram
sem pena
apontados, ridos...
Correste
covardemente...
Corri o mais
que pude, mas
não saí do
lugar, soldado
na linha de
frente, que
levanta o
facão, que grita
e mostra os
cerrados dentes,
mantém o
inimigo longe.
Corri tanto
que não movi
meu corpo,
enfrentei Dragão,
perdi-me numa
flor de lágrimas,
que
envolveram minha vida,
deixei minha
linda flor
perdida no
mundo verde,
corri o mais
veloz, mas não
saí do teu
lado, mas
corri tanto e
tanto, que,
estando assim
mesmo ao lado,
saudades eu
sinto e mesmo
depois de
correr bastante...
Epílogo em tom de
ameaça
Tome essas
palavras que
estão na
garrafa que no
verde-azulado
mar
azul-esverdeado
foi
jogada,
arremessada e
reveio na
maré alta, foi
subindo os
riachos, cachoeiras
escalou, nas
tuas mãos ela
irá enfim
chegar, eu sei,
à fresta do
seu olhar
irás
decifrar, eu sei,
irás
procurar, estou
ali, bem
atrás da nuvem,
estás, eu
sei, aflita, mas
eu estou bem
ali, raflésia
enorme, tão
perto estou
que vou te
abraçar, vou sim!
Vou te calar
em carinho,
vou sim!
Sufocar as dores,
vou sim!
Calar, sufocar...