sábado, 30 de novembro de 2019

Transparências



Este foi o meu segundo livro de poemas, publicado 2014, trazendo versos elaborados na sua maioria em 2009. A capa vem originalmente de uma foto de Leilton Damascena, mostrando nossas sobras no solo esturricado da Caatinga.

Ele caminhou nos sítios da infância,
no baldio, onde o chumbo era derretido
para fazer os goleiros do botão;
no cruzamento, onde as bicicletas
chocaram-se, porque não tinham freio;
no campinho de futebol da cento e oito,
onde o gol não logrou ser convertido.

Ele caminhou de novo, reviu tudo.
A trajetória perdida da bola,
o prateado borbulhante do chumbo
na forma de fósforos Guarani,
a velocidade irresponsável.

Ele voltou. Ele retornou. Ele reveio.
Tanto voltou que a criança o percebeu.
Ergueu-se doída, levou a bicicleta
amarela, amassada, desenfreada.


Olhando de soslaio o vulto futuro,
O menino percebeu o homem grisalho,
avançado na idade e sorriu-lhe
mostrando-lhe o goleiro de chumbo.


O menino percebeu e veio até ele.
Veio em busca do carinho, mesmo sendo
seu próprio carinho. Amam-se o menino
e o velho. Amam-se sinceramente,
sensualmente mesclados nos seus corpos
nos recônditos lugares da infância.

(p. 67)


quinta-feira, 28 de novembro de 2019

"Memorial de Aires" de Machado de Assis



            O último romance de Machado de Assis discorre sobre uma história banal. A jovem viúva Fidélia, encontra um novo amor em Tristão. Eles se casam e migram para Lisboa, onde Tristão é político prestigiado.
            A dramaticidade é construída a partir do Casal Aguiar, o marido e a esposa: D. Carmo. Trata-se de um casal que não teve filhos. O desejo da paternidade e de oferecer o amor que tinham para dar, fá-los, primeiro, adotando um cão, que acaba por morrer. Depois recebem como afilhado o filho de um casal de amigos: Tristão. Contudo o casal de amigos viajam para Portugal e desaparecem com a criança. Finalmente adotam Fidélia, jovem viúva abandonada pela família.
            Muitos anos depois de sua partida Tristão volta já homem feito e o casal Aguiar vive um ano em celestial alegria com os dois filhos postiços, que apaixonam-se e casam-se. Mas a alegria transforma-se em profunda melancolia, quando o casal viaja até Lisboa e lá Tristão assume a carreira política, deixando o casal de velhos no Brasil, tristes e solitários.
            A história seria banal se não fosse a forma como o autor a contou. Machado de Assis cria um personagem, o Conselheiro Aires, um diplomata aposentado, que há um ano retornou para o Brasil e agora dedica-se a fazer anotações sobre o que se passa com seus conhecidos.
            O romance se desenvolve entre 9 de janeiro de 1888 e uma data indeterminada depois de agosto de 1889. Serve-se, como pano de fundo, o processo da abolição da escravatura.
            O romance inicia-se com a visita que Aires e sua irmã Rita fazem aos túmulos dos parentes. Ali encontram a jovem viúva Fidélia, que vai render homenagem ao marido. Nesta ocasião Rita aposta com Aires que Fidélia não deixará sua viuvez, enquanto que Aires afirma que a deixará assim que encontrar um bom partido.
            Aires, como o próprio autor diz na "advertência" é uma personagem que Machado de Assis já havia usado no romance "Esaú e Jacó", onde também é referido como uma pessoa que escreve um Memorial.
            Inicialmente este bom partido bem que poderia ser o próprio Aires e, sem declarar de forma aberta esta intenção, ele começa a frequentar a casa dos Aguiar. O marido, é um banqueiro e D. Carmo, a esposa é uma senhora prendada e melancólica, que vive para dar amor à sua filha postiça e para sentir saudades do seu filho postiço Tristão.
            Aires-Machado, constrói as personagens com precisão. Fidélia casou-se sem a permissão paterna, o Barão de Santa Pia, porém logo depois de casada o marido veio a falecer. O pai não lhe perdoou a desobediência e a manteve afastada. A solidão da viúva encontrou-se com as saudades filiais de D. Carmo e seu marido. Sendo uma pessoa encantadora e sendo encantadores os velhos, adotaram-se mutuamente como pais e filha.
            O Barão de Santa Pia fornece o mote para estender o pano de fundo. Latifundiário da Paraíba do Sul, vê com preocupação o movimento pela abolição. Percebendo tudo inevitável, o Barão liberta todos os seus escravos antes que a abolição se consuma. Os escravos libertos não têm para onde ir e ficam na fazenda trabalhando para o Barão. Este adoece e morre, sem voltar a falar com a filha, que herda a propriedade e o gerenciamento dos escravos libertos. Antes de casar-se Fidélia dispõe-se a fender a propriedade, mas Tristão a convence de doar a propriedade aos libertos, para que eles pudessem dar um destino às suas próprias vidas.
            Fidélia teve outros pretendentes, como o Osório, que foi miseravelmente rejeitado, dando como justificativa a necessidade de dedicar-se à viuvez, dando a entender que não era ainda a pessoa ideal.
            De repente chega-se notícia de Tristão e logo este vem ao Brasil para visitar os padrinhos, que o recebem carinhosamente.
            Depois de alguns meses Tristão e Fidélia estão enamorados.
            A história toda é contada aos fragmentos, através das visitas quase semanais que Aires faz aos Aguiar, ou através de informações que Rita lhe trás ou através de notícias de terceiros como o desembargador Campos, tio de Fidélia e conhecido de Aires, como também através de terceiros como D. Cesária, mulher que gosta de falar mal dos outros, sem mal e de todos.
            Aires é um dissimulado, característica associada a sua antiga profissão de diplomata. Ele pensa antes de falar, fala sempre com discrição e jamais emite uma opinião que possa ser mal interpretada ou causar alguma polêmica. Mas não passa de um desocupado que vive a ter conta das outras pessoas para fugir de sua vida vazia.
            Aires-Machado nos faz ver que todas as relações são, conforme na diplomacia, regidas por meias palavras e dissimulações. As relações entre as pessoas não deixam de ser verdadeiras e sinceras, mas nunca tudo é dito completamente, nunca a verdade é dada de forma límpida.
            A verdade é que a felicidade de Aguiar e sua esposa é insustentável. A verdade é que o fim reservado para as suas vidas é a solidão, que eles têm apenas um ao outro, a um certo momento, nem isso. Os Aguiar não querem ver esta realidade que avança inexorável contra eles, eles lutam contra o abandono que por qualquer caminho que a história se desenrole parece inevitável: a solidão e abandono do casal.
            Aires participa ativamente de todo o processo, sua participação, contudo, não é determinante para o desenrolar, ele é apenas um observador e por ser totalmente externo à história que narra, de vez em quando é usado pelas outras personagens como confidente. Como as pessoas lhe confiam segredos, Aires tem um conhecimento privilegiado sobre todos os outros curiosos que rondam a vida dos Aguiar (D. Cesária, Rita e até mesmo o tio de Fidélia, o desembargador Campos.)
            As personagens são todas bem construídas e individualizadas. Os principais: Aires, os Aguiar, Tristão e Fidélia são os mais bem trabalhados. Mas as personagens secundárias também têm uma personalidade definida, como o Barão de Santa-Pia, que apesar de não ser exaustivamente descrito, tem uma individualidade palpável. Também têm personalidade o desembargador Campos, Rita, D. Cesária e até o marido desta, assim como o pretendente infeliz o Osório. Existem personagens vazios como Carlos, filho do desembargador que aparece apenas de forma decorativa, ou o mordomo José que tem alguma construção, mas também é apenas decorativo.
            O livro trata sobre a solidão da velhice, fala sobre como as pessoas lutam contra esta solidão e como ela é inevitável. Aires-Machado compara a velhice à morte, de várias formas e em vários momentos e usa essa comparação para libertar os jovens da culpa que sentem ao abandonar os velhos. Isso vai contra o senso comum e não é aceito pelo desembargador Campos, quando isso lhe é afirmado.
            Interessante notar, aproveito aqui a nota de Décio Luís, encontrada na edição do romance que li (Coleção Páginas Amarelas, vol. 2, editora Expressão e Cultura, 2001) onde ele afirma que a cena final, em que Aires encontra o casal Aguiar sós e silenciosamente sentados um diante do outro, como a imagem do casal Machado e Carolina que "tinham saudades de si mesmos", ou seja, Não só Aires é uma manifestação de Machado de Assis, mas também o próprio Aguiar. \
            Em certo trecho do romance, Aires-Machado diz estar em outro mundo, pois é necessária a distância no mar para melhor ver as pessoas na praia. Com este romance Machado de Assis tenta afastar-se de si mesmo, para ver-se imerso na sociedade e na família, como num  auto-retrato.


terça-feira, 26 de novembro de 2019

"I diari della luce" de Paola Buccheri

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Este livro de Paola Buccheri vem de uma longa experiência da autora  fazendo textos em um blog (Blu Cobalto), do qual ela extraiu aqueles textos que falam de sua vocação maior: o amor, aquele que "si moltiplica per divisione" (p.8)
o amor de Paola é o amor ensinado  por Jesus..." la potenza di Gesù in croce ė estata di morire d'amore per noi" (p.27).... é o décimo primeiro mandamento: amar ao próximo como a si mesmo.... Pode-se dizer que o livro é a busca diária por este amor e, mais ainda, o esforço diário para a sua doação ao próximo, ao que Paola dedicou-se por anos no trabalho da catequização de jovens para cristianismo católico, na educação de seus filhos, no cuidado com seus familiares diretos, arrisco dizer até dispensando um precioso carinho  a mim.
Paola é uma querida amiga, uma paixão cozida na distância e na saudade que acabou por transformar-se numa amizade afetuosa e sincera de ambas as partes.
Justo por conhecer suas angustias, suas vitórias e derrotas nesse longo processo, que sinto o livro filtrado ao extremo. Sinto falta dessas omissões. senti falta da sua passagem pelo Brasil, que teve apenas a referência ao Cristo Redentor carioca "Aquele abraço! " (p. 126). Mas entendo que há necessidade de um mínimo de objetividade  diante de um tema tão subjetivo.
Paola é uma pessoa capaz de abrir seu coração, pelo menos a mim, sem falsos pudores. Eu vejo um coração marcado pela busca do amor, mas não vejo um coração cansado ou desanimado, ele está vivo, vermelho, pulsante. Eu o sinto capaz de mais 50 anos de busca e doação.
Para aqueles que não a conhecem, o livro pode até passar a ideia de uma mulher fisicamente forte, até mesmo gorda, uma matrona italiana, de carnes fartas, bochechas vermelhas e voz sonora. Mas Paola não é assim. Magrinha, pequena, palida . Ela fala no livro dessa falta de sangue que a acompanha há anos: " la mia carenza di sangue, il mio pallore" (p. 60). Diante dela, é difícil crer que ela foi capaz de gerar dois filhos: a cantora Margarida assina a capa, acredito que a mãe numa postura que eu reconheço; e Francisco,  que deixou a ilustração de uma arvore com folhas rômbicas  na borda de uma falésia (p.163)... também reconheço Paola nesssa arvore vigorosa.
Mas Paola não é uma beata medieval, ela é uma mulher católica que vive essa transição do seculo XX para o XXI, ela enfrenta as grosserias do trânsito, ela conversa com as séries de tv. Disso tudo ela extrai combustível para sua busca/doação: amor
Paola é um mineiro que busca a rara gema engastada na rocha sem valor da indiferença, na poeira do desamor, nas lamas das tristezas. Se assim for, minha Paola é a mais rica beata  do século XXI, por que ela consegue  achar amor até em naftalínicos botânicos metidos a cientistas cartesianos!!!
Se às vezes, Paola, esse amor que você encontra não lhe deixe tāo animada, até um pouco desanimada,  é por que essas matrizes onde o encontra , que são valorizadas pelo seu toque, pela sua atenção, não produzem gemas que sequer chegam perto do brilho que é esse diamante: você!


Buccheri, Paola.I diari della luce. Boscoreale (NA), IT: Il quaderno edizioni, 2019

lido em ago 2019.

Fuga Vertiginosa






"Fuga Vertiginosa" foi meu segundo livro de poemas. Contendo poemas elaborados entre 2008 e 2009. A capa é uma aquarela de Claudia Cunha, inspirada numa paisagem de Caatinga.

Verde e Azul

Prólogo


No início não tinha nada
suas almas flanavam sobre
as águas, os céus não tinham
estrelas, nenhuma luz
lumiava as perdidas faces
que não conheciam calor
da aurora ou perfume úmido
das claras manhãs gorjeadas
com pássaros, luz, frescor,
trazendo vontade do vácuo
preencher, do vazio completar,
finar solidão infinita


Diálogo


E foi numa aurora quando
vi a luz dos dois olhos
fitando a longínqua flor,
beleza indizível, doce,
o braço cruzado, mão
direita tocando o braço
esquerdo, carícia irmã,
possível desenho em lábio
sem jaça de um sorriso.

A flor do infinito que
minha visão extasiou
de tal formosura era
que tudo ao redor deixou
de ser e ficou tão frio,
tão frio, que meu braço destro
cruzou-se por sobre o braço
esquerdo em carícia irmã,
que gerou um élan, saudade
do toque, carinhos idos.


Do nada surgi, da escura
matéria, primeiro vieram
meus braços, que te abraçaram,
primeira função dos braços,
que até ali nada faziam
além do que já era devido:
matar e levar à boca,
lutar e dizer adeus.
Por sobre teus braços, pele
macia, qual serpente, píton,
captando com língua odores
tão doces, de flor distante,
carinho roubado à irmã.

Do escuro veio meu lábio,
roçando de leve o ouvido,
desceu, já em calor, à nuca,
perfume inalado tênue,
suave amoroso hálito.

A pele do colo intuiu
sorriso só por mover
o lábio, que veio da fina
matéria escura, que
deu cócegas, que aqueceu,
cresceu a vontade de
saber o conceito do que
em mim de repente criou.

Agora com todo corpo
do breu renascido, exposto,
corpos unidos, quentes,
ternura vazando em fluxo,
mundo criando-se
inteiro, as flores todas,
as luzes, ar, céu, manhã,
café da manhã, sabores,
os pássaros todos, vôos,
élan de rebroto novo.


Andavas nas nuvens, via
tua imagem oculta entre
os flocos gelados nas
alturas, o céu  tão azul,
tão azul, eras tu azul todo,
celeste que abrasa, mas
o abraço é frio, pois mesmo
azul, mais distante estavas
do que no meu sonho, brumas,
um céu salpicado de nuvens.

Oculto nas nuvens, via
teu andar displicente, via
tuas preces aos céus lançadas
e eu me apoderava delas
e dos teus sonhares todos
e dos teus desejos todos,
comia-os, levando-os co´as
duas mãos à mi´a boca aberta
enquanto tritura sonhos,
desejos e preces, dentes!
Pequenos pedaços deles
caíam no dossel imenso
da mata contínua até
a curva da Terra, a cada
pedaço uma flor criava,
teu espírito era a vida
da mata inteira verde,
tapete felpudo em que
meus dedos corriam por entre
papilas floridas tuas.
Floresta e Céu unidos,
azul-esverdeado, mar
a Terra nua azul com suas
cobertas em verde casto,
água-marinha, esmeraldas.

Uma onda gelada contra
Meu corpo rochedo veio
Rocamboleando mi´a vida,
segredos mostrados públicos
jogada na areia da praia
sequei ao sal, ao sol, sozinha.
Não estavas, covarde, lá onde
meus restos dispersos eram
sem pena apontados, ridos...
Correste covardemente...

Corri o mais que pude, mas
não saí do lugar, soldado
na linha de frente, que
levanta o facão, que grita
e mostra os cerrados dentes,
mantém o inimigo longe.
Corri tanto que não movi
meu corpo, enfrentei Dragão,
perdi-me numa flor de lágrimas,
que envolveram minha vida,
deixei minha linda flor
perdida no mundo verde,
corri o mais veloz, mas não
saí do teu lado, mas
corri tanto e tanto, que,
estando assim mesmo ao lado,
saudades eu sinto e mesmo
depois de correr bastante...


Epílogo em tom de ameaça

Tome essas palavras que
estão na garrafa que no
verde-azulado mar
azul-esverdeado foi
jogada, arremessada e
reveio na maré alta, foi
subindo os riachos, cachoeiras
escalou, nas tuas mãos ela
irá enfim chegar, eu sei,
à fresta do seu olhar
irás decifrar, eu sei,
irás procurar, estou
ali, bem atrás da nuvem,
estás, eu sei, aflita, mas
eu estou bem ali, raflésia
enorme, tão perto estou
que vou te abraçar, vou sim!
Vou te calar em carinho,
vou sim! Sufocar as dores,
vou sim! Calar, sufocar...

domingo, 27 de julho de 2014

Aspectos do racismo


A exclusão de um semelhante baseada puramente em critérios raciais é uma característica  da sociedade brasileira. O esforço pela inclusão dos afrodescendentes na sociedade, de forma que todos tenham acesso aos benefícios do desenvolvimento econômico observado no país nos últimos anos, esbarra no comportamento racista dentro das comunidades negras. Novamente, recai sobre as escolas a incumbência de lutar contra a discriminação.
O racismo de negros contra negros vem já da época da escravidão em que os próprios negros libertos tinham escravos. Isso, a desvalorização social do negro,  se reflete no presente e pode ser observado em comportamentos não percebidos pelos atores sociais contemporâneos.
Um aspecto interessante é a dificuldade que evangélicas negras têm para encontrar parceiros. A evangélica devota deseja um casamento com outro cristão evangélico e que este casamento seja um exemplo de fidelidade e  persistência nos votos matrimoniais. Contudo há uma grande percentagem de evangélicas negras que não conseguem se casar ou encontrar parceiros negros, pois estes desejam ainda casar-se com mulheres brancas. Na verdade, o casamento com mulheres brancas ainda está relacionado à ascensão social do negro levando a uma rejeição das mulheres negras.
As características das raças afrodescendentes continuam fortemente rejeitadas pelos próprios negros.  Um exemplo disso é a rejeição aos cabelos crespos. Entre os homens, aparentemente, esta rejeição reduziu-se significativamente, já pouco se observa negros adultos de cabelos alisados. Emblemático neste sentido foi a crítica feita por Malcon X a esta prática nos Estados Unidos, levando virtualmente à sua extinção, retornando agora por apenas como formas diferentes de fazer penteados para ocasiões festivas ou esportivas, mas não com o objetivo de fazer o cabelo parecer liso de forma sistemática e como um desejo de esconder o verdadeiro aspecto de seus cabelos e não apenas como um enfeite. Entre as mulheres isso não está acontecendo. Negras jovens ainda submetem-se a tratamentos caros, expondo-se a produtos químicos obscuramente inócuos, para manter os cabelos lisos e sedosos. Entre as reclamações de mulheres negras deprimidas aparece a necessidade de alisar os cabelos, ou colocar apliques para simular cabelos lisos, como um dos fatores que determinam seus estados psicológicos.
Este racismo é ensinado nas escolas de forma não totalmente inocente. Apenas recentemente os livros didáticos passaram a ser policiados para a inclusão de figuras humanas negras entre as brancas. Porém tal prática ainda não foi internalizada pelos promotores do ensino, professores e gestores da escola, na sua maioria brancos ou “quase brancos”,  aproveitando a irônica canção de Caetano Veloso e Gilberto Gil. Na ornamentação das escolas e das salas de aula, mesmo em instituições em que a maioria da clientela é negra quase que na sua integridade, as representações de negros são raras e muitas vezes têm seus atributos modificados, como o cabelo alisado. Esta prática expõe crianças negras à rejeição da raça e dos atributos negros, levando de forma subliminar ao racismo de negros contra negros.

Feira de Santana/Salvador, jul 2014

quinta-feira, 26 de abril de 2012

Da pesquisa para a extensão, da extensão para a pesquisa: a continuidade numa Universidade fragmentada.

A prática da extensão numa instituição de ensino superior esbarra na dificuldade em se delimitar de forma objetiva o que é extensão e o que é pesquisa. Esta falta de definição faz com que parte dos recursos que deviam servir ao desenvolvimento de atividades de extensão acabe sendo utilizado na pesquisa. Para evitar esta sangria de recursos, a comunidade universitária envolvida com extensão debate freqüentemente a delimitação da atividade de extensão. Esta separação é difícil, pois dentro do todo universitário, as duas atividades dialogam e complementam-se, sendo que esta discussão está relacionada ao fato da Universidade moderna ser um todo orgânico, que é  fragmentado por razões logísticas.
Uma Universidade faz atividades em três direções distintas, mas interdependentes, que trocam informações entre si. São estas atividades de ensino, de pesquisa e de extensão. É ponto pacífico que uma Universidade deve privilegiar as três atividades de forma harmônica. Também é claro que este triângulo nunca será isósceles, pois cada uma das atividades são executadas por pessoas das mais diversas formações e dependendo das diretrizes destas pessoas a IES terá uma hipertrofia em alguma destas atividades. É muito comum que Universidades tenham uma hipertrofia no ensino, com atividades de pesquisa e extensão inconspícuas; é o caso de algumas Universidades particulares, que têm sido pressionadas para o desenvolvimento das outras duas atividades em suas dependências. Entre as Universidades públicas é comum a hipertrofia das atividades de pesquisa e ensino, com atividades de extensão insignificantes. Contudo existem pressões e incentivos do governo federal no sentido de favorecer a extensão nas IES públicas.
A extensão é essencial para a integração da Universidade na comunidade. As atividades de extensão formam uma via onde o professor pesquisador vê os resultados de seu trabalho sendo observados, manipulados, utilizados pela comunidade. Ao mesmo tempo, a extensão é a oportunidade da comunidade expressar as suas necessidades à Universidade. Tudo isso é muito complexo. Passa por problemas de inteligibilidade, tanto num sentido como no outro, ou seja, a sociedade externa à IES tem dificuldade de entender a comunidade universitária e vice-versa. Outro problema é como viabilizar este contato, como trazer a sociedade para a Universidade e como levar a Universidade para a sociedade? Existem diversos mecanismos que podem funcionar, mas tudo tem que ser planejado com cuidado para não desperdiçar os recursos exíguos. Então não se deve pensar que a extensão é uma atividade simples: muito longe disso.
As atividades de extensão são aqui entendidas como ações geradas na comunidade universitária em direção à sociedade em que esta instituição está inserida. Um exemplo disto é o projeto “Implantação da Biblioteca do Dispensário Santana”. A implantação em si da Biblioteca na conhecida instituição católica não é uma atividade de extensão, mesmo que seja planejada e executada por um professor da Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS), mas a partir do momento que o projeto de implantação da Biblioteca passa a fazer parte dos projetos ordinariamente tramitados dentro da UEFS e esta IES passa a direcionar recursos para desenvolvimento do projeto, recursos estes que podem ser traduzidos em material de consumo, equipamentos, recursos humanos, bolsas de estudo etc., a partir deste momento temos uma atividade de extensão.
A atividade de extensão articula-se com a atividade de ensino principalmente quando o estudante universitário executa parte dos procedimentos do projeto. Este participação do estudante é uma atividade dupla. Primeiro o estudante ajuda na manutenção do projeto em si e depois tem a oportunidade de agir na sociedade, orientado pelos docentes envolvidos no projeto. A participação do estudante é essencial, sem eles a ação social do projeto é mínima, pois os docentes envolvidos, assoberbados com suas obrigações ordinárias dentro da Universidade não têm condições de administrar de forma contínua os projetos de extensão. Em contrapartida, o estudante universitário tem a oportunidade de praticar seu aprendizado acadêmico, tornando-o profissional mais capaz. O corpo discente é o que a Universidade tem de mais precioso, é a própria razão de sua existência, o estudante enrobustecido pela carga de conhecimento que adquire durante o desenvolvimento do seu curso terá a oportunidade de lapidar este conhecimento na prática da pesquisa, onde produzirá conhecimento e na extensão, onde utilizará seu conhecimento para favorecer a comunidade.
A atividade de extensão também se articula com a pesquisa. Muitas atividades de pesquisa acabam produzindo extensão e vice-versa. Digamos que um grupo de pesquisadores está interessado na ocorrência de verminoses numa comunidade rural. Monta-se um projeto, combina-se com a comunidade alvo e exames parasitológicos de fezes são feitos entre os integrantes da sociedade. Como resultado temos uma lista de parasitas encontrados, temos quais são os mais freqüentes, podemos associar estes resultados aos hábitos higiênicos da população, às suas práticas profissionais e muito mais. É um trabalho importante para a comunidade científica e para os governantes, que precisam de parâmetros de qualidade para balizar suas políticas de saúde, por isso o trabalho deve ser publicado, encerrando o ciclo da pesquisa: Elaboração do projeto, execução do projeto, publicação dos resultados, que gerará base para a elaboração de mais projetos e assim por diante. Em nenhum momento deste projeto ocorreu extensão. Os pesquisadores saíram da Universidade, agiram dentro da sociedade, lidaram com problemas importantes dentro da sociedade, esta atividade produziu bibliografia importante, mas não houve a extensão. A sociedade foi apenas objeto da pesquisa, nada desta atividade retornou à sociedade, mesmo se houve publicação em periódico de ampla circulação, os resultados da pesquisa pouco valeram para a sociedade. Mas a partir do momento em que os médicos participantes do projeto retornam para a população estudada e promovem o tratamento das doenças identificadas com o correto receituário, quando os estudantes envolvidos executam atividades educacionais visando a mudança de hábitos higiênicos da comunidade, quando a comunidade estudada interage expressando o que ela realmente quer que os pesquisadores respondam e pesquisem e, principalmente, se toda essa atividade faz parte de um todo integrado (um projeto) no sentido de devolver para a população os resultados da pesquisa, neste momento temos a extensão.
É comum a extensão produzir ciência, pois sendo uma atividade desenvolvida com base num projeto, que tem objetivos razoáveis e métodos exequíveis, metas, cronograma de execução e recursos suficientes, é de se esperar que os resultados sejam publicáveis e não surpreenderá se a prática do projeto originar questionamentos que possam ser respondidos utilizando-se os métodos científicos. No exemplo do exame parasitológico de fezes de uma comunidade, se as atividades extensionistas deram o resultado esperado, com a mudança do hábito higiênico, algumas parasitoses devem ter sua ocorrência muito reduzida, o que pode ser avaliado através de um contínuo monitoramento da infestação na comunidade. Além das atividades extensionistas existem outros fatores que influenciam a infestação na comunidade, para conhecer estes fatores é necessário propor projetos, executá-los, analisar os resultados comparar com outros já publicados... Em suma: fazer pesquisa.
Assim temos que as três atividades da Universidade (ensino, pesquisa e extensão) são intimamente interligadas. Contudo, a estrutura das Universidades não permite integrar as três atividades. Isso se dá porque a Universidade é dividida em setores hierarquicamente dispostos com pouco diálogo entre hierarquias diferentes. O setor que gerencia a pesquisa, geralmente ligado ao que gerencia a pós-graduação, dialoga pouco tanto com o setor de ensino de graduação, como com o de extensão. Em muitos momentos, os diversos setores hierárquicos atuam de forma antagônica, principalmente na execução orçamentária.
Uma parte significativa dos recursos que entram na Universidade é direcionada à pesquisa e à sua filha primogênita a pós-graduação. Para se ter acesso a estes recursos os professores pesquisadores precisam passar por diversos filtros, que são relacionados à sua produção científica e ao impacto de suas publicações. Um professor pesquisador que se dedica também à extensão terá, logicamente, seu acesso aos recursos reduzidos. A extensão universitária não tem mecanismos similares de acesso aos recursos, de forma que o professor pesquisador não é estimulado a abraçar a extensão como uma atividade profissional. Quem faz esta atividade na Universidade, muitas vezes a faz por puro diletantismo. Para reverter este quadro é necessário que a extensão tenha uma produção de impacto, mas esta produção não pode sofrer a mesma avaliação que os setores ligados à pesquisa sofrem. Se a produção publicada da extensão é reduzida, a sua avaliação em termos de qualidade está longe até de ser proposta.
Além disso, como os recursos são exíguos, muitos pesquisadores não conquistam proventos suficientes para o desenvolvimento de seus projetos. Uma solução é disputar os recursos de extensão, onde a falta de uma estruturação (ausência de critérios claros de concessão de bolsas, por exemplo) permite que pesquisadores acabem adquirindo recursos para desenvolvimento de projetos de pesquisa e não de extensão
A produção científica acadêmica, principalmente aquela não tecnológica, está distante dos anseios da comunidade. Um caso é emblemático. Uma mãe e sua filha estão com um filhote de pássaro na palma da mão, procuraram o laboratório de ornitologia da Universidade para que ali os biólogos cuidassem do pequeno. Acontece que no laboratório não se cuidava de animais vivos. Pelo contrário. Ali os animais eram sacrificados, empalhados e armazenados na coleção científica. Ora, a mãe e sua filha saíram indignadas. A duas representantes da sociedade simplesmente não sabiam o que se faz realmente num laboratório de ornitologia, pois nunca foram informadas sobre isso. A extensão pode transferir estas informações para a sociedade de forma correta sem deformação, mas para tanto é necessário a participação dos professores pesquisadores sem prejuízo de suas atividades.
A extensão universitária é muito dependente do grau de abertura para atividades multi e interdisciplinares. Estas atividades são francamente inibidas pela estrutura da Universidade, fechada em suas hierarquias. Na Universidade Estadual de Feira de Santana, se um professor do departamento de biologia quer desenvolver um projeto no departamento de letras ou de geografia, ele tem que passar seu projeto dentro do departamento de Biologia. Na maioria das vezes, os colegas que participam dos fóruns julgadores destes projetos têm dificuldade para analisar projetos que não estão perfeitamente enquadrados na sua área de conhecimento e acabam por abortar os projetos logo no seu nascedouro. Às vezes existe alguma boa vontade na tramitação dos projetos, eles são enviados para pareceristas externos ao grupo, mas como isto é muito surpreendente e muito diferente, os projetos acabam sendo rejeitados, muitas vezes ignorados ou sua tramitação é tão lenta que o grupo gerador do projeto acaba se desarticulando. A extensão deve ser trabalhada em cada nível da hierarquia universitária, como as atividades de pesquisa, estando cada nível pronto para receber e avaliar cada projeto com brevidade e competência.
Muitos problemas vividos atualmente nas Universidades, como consumo de drogas no interior do Campus, presença da polícia para segurança das pessoas que circulam nas dependências da instituição, destino correto do lixo gerado durante as atividades universitárias, restaurante universitário, atividades artísticas e esportivas etc., podem ser tratados de forma bastante produtiva através da extensão universitária e através deste processo pode ocorrer produção de conhecimento de primeira linha.
Os gestores da Universidade, muito intoxicados com a luta política nos seus diversos níveis, aparentemente não se deram conta disso, mas ainda não é tarde demais. Basta uma mudança de atitude, um sentar mais demorado e um acostumar de vistas diante da complexidade que se apresenta, para ver o óbvio: a extensão é a solução.
Para tanto, precisamos reduzir o isolamento dos departamentos e institutos, criar mais grupos de trabalho interdisciplinares, envolver os estudantes, criar mecanismos de publicação de trabalhos de extensão, direcionar recursos e executá-los sem rodeios. Precisamos levar o conhecimento da tramitação de documentos a todos os níveis universitários (aos estudantes, aos funcionários, aos professores e à comunidade), para que os processos corram sem atropelos e retornos, para que possamos buscar a redução de passos administrativos.

Precisamos criar uma continuidade entre os procedimentos e entre os setores, diminuindo a fragmentação da Universidade, sem o que a nossa comunidade tende ao brejo aos pedaços, sem esperança de vida.

Feira de Santana, abr 2012.

quinta-feira, 19 de abril de 2012

Programa de Extensão Restaurante Universitário: PERU




O restaurante universitário é um problema. Primeiro temos a necessidade de oferecer comida a custos reduzidos, pois a média dos estudantes universitários não é rica. Em segundo lugar, mas ao mesmo tempo o produto, oferecido deve ser de boa qualidade, pois o estudante precisa alimentar-se bem para enfrentar a sua formação universitária. Em terceiro, precisamos administrar o restaurante de forma que não faltem insumos e que os recursos humanos não fique insuficiente comprometendo o restaurante. Finalmente, em quarto, precisamos fiscalizar as atividades para manter a higiene em níveis aceitável para os padrões da ANVISA. Para atacar esse problema sugiro a implantação de um Programa de Extensão Restaurante Universitário (PERU). Este programa deveria ser coordenado pelo pessoal do curso de engenharia de alimentos. O PERU desenvolveria 4 projetos. O projeto 1 teria como objetivo produzir alimento com a qualidade necessária para um estudante médio alimentar-se com qualidade para preparar-ser melhor para os estudos. O projeto 2  deveria focar a produção tradicional de alimentos, chamando as cozinheiras dos arredores para ensinar e fixar suas receitas . O projeto 3 teria como objetivo a administração do restaurante, providenciando o fluxo contínuo de insumos e a quantidade necessária de recursos humanos; expoentes do próprio setor administrativo da UEFS poderiam coordenar este projeto. O projeto 4 fiscalizaria todo o processo: aspectos microbiológicos, infestação de animais etc., acho que colegas do departamento de biologia poderiam coordenar este projeto. Cada projeto do programa teriam 2 bolsas de extensão, os bolsistas de extensão, orientados pelos coordenadores dos projetos ou seus associados, ficariam com a responsabilidade de executar os projetos. A universidade entraria com os equipamentos necessários e com as bolsas de extensão, como também com os recursos necessários para o contrato terceirizados para limpeza (administrado pelo projeto 3) e para a culinária (projeto 1). O programa ofereceria relatório anual disponibilizado para toda a comunidade Universitária. O PERU seria gratuito aos estudantes de graduação e bolsistas IC ou ITI; o valor mínimo seria pago pela metade por estudantes de pós-graduação e teria o valor duplicado para professores, visitantes externos à UEFS, bolsistas DTI, pós-doutores etc. Claro que teríamos que fazer uma resolução específica para o PERU, liberando talvez mais bolsas de extensão... Bom, isso a Malena tira de letra...

Feira de Santana, Abr 2012.