terça-feira, 26 de novembro de 2019

Fuga Vertiginosa






"Fuga Vertiginosa" foi meu segundo livro de poemas. Contendo poemas elaborados entre 2008 e 2009. A capa é uma aquarela de Claudia Cunha, inspirada numa paisagem de Caatinga.

Verde e Azul

Prólogo


No início não tinha nada
suas almas flanavam sobre
as águas, os céus não tinham
estrelas, nenhuma luz
lumiava as perdidas faces
que não conheciam calor
da aurora ou perfume úmido
das claras manhãs gorjeadas
com pássaros, luz, frescor,
trazendo vontade do vácuo
preencher, do vazio completar,
finar solidão infinita


Diálogo


E foi numa aurora quando
vi a luz dos dois olhos
fitando a longínqua flor,
beleza indizível, doce,
o braço cruzado, mão
direita tocando o braço
esquerdo, carícia irmã,
possível desenho em lábio
sem jaça de um sorriso.

A flor do infinito que
minha visão extasiou
de tal formosura era
que tudo ao redor deixou
de ser e ficou tão frio,
tão frio, que meu braço destro
cruzou-se por sobre o braço
esquerdo em carícia irmã,
que gerou um élan, saudade
do toque, carinhos idos.


Do nada surgi, da escura
matéria, primeiro vieram
meus braços, que te abraçaram,
primeira função dos braços,
que até ali nada faziam
além do que já era devido:
matar e levar à boca,
lutar e dizer adeus.
Por sobre teus braços, pele
macia, qual serpente, píton,
captando com língua odores
tão doces, de flor distante,
carinho roubado à irmã.

Do escuro veio meu lábio,
roçando de leve o ouvido,
desceu, já em calor, à nuca,
perfume inalado tênue,
suave amoroso hálito.

A pele do colo intuiu
sorriso só por mover
o lábio, que veio da fina
matéria escura, que
deu cócegas, que aqueceu,
cresceu a vontade de
saber o conceito do que
em mim de repente criou.

Agora com todo corpo
do breu renascido, exposto,
corpos unidos, quentes,
ternura vazando em fluxo,
mundo criando-se
inteiro, as flores todas,
as luzes, ar, céu, manhã,
café da manhã, sabores,
os pássaros todos, vôos,
élan de rebroto novo.


Andavas nas nuvens, via
tua imagem oculta entre
os flocos gelados nas
alturas, o céu  tão azul,
tão azul, eras tu azul todo,
celeste que abrasa, mas
o abraço é frio, pois mesmo
azul, mais distante estavas
do que no meu sonho, brumas,
um céu salpicado de nuvens.

Oculto nas nuvens, via
teu andar displicente, via
tuas preces aos céus lançadas
e eu me apoderava delas
e dos teus sonhares todos
e dos teus desejos todos,
comia-os, levando-os co´as
duas mãos à mi´a boca aberta
enquanto tritura sonhos,
desejos e preces, dentes!
Pequenos pedaços deles
caíam no dossel imenso
da mata contínua até
a curva da Terra, a cada
pedaço uma flor criava,
teu espírito era a vida
da mata inteira verde,
tapete felpudo em que
meus dedos corriam por entre
papilas floridas tuas.
Floresta e Céu unidos,
azul-esverdeado, mar
a Terra nua azul com suas
cobertas em verde casto,
água-marinha, esmeraldas.

Uma onda gelada contra
Meu corpo rochedo veio
Rocamboleando mi´a vida,
segredos mostrados públicos
jogada na areia da praia
sequei ao sal, ao sol, sozinha.
Não estavas, covarde, lá onde
meus restos dispersos eram
sem pena apontados, ridos...
Correste covardemente...

Corri o mais que pude, mas
não saí do lugar, soldado
na linha de frente, que
levanta o facão, que grita
e mostra os cerrados dentes,
mantém o inimigo longe.
Corri tanto que não movi
meu corpo, enfrentei Dragão,
perdi-me numa flor de lágrimas,
que envolveram minha vida,
deixei minha linda flor
perdida no mundo verde,
corri o mais veloz, mas não
saí do teu lado, mas
corri tanto e tanto, que,
estando assim mesmo ao lado,
saudades eu sinto e mesmo
depois de correr bastante...


Epílogo em tom de ameaça

Tome essas palavras que
estão na garrafa que no
verde-azulado mar
azul-esverdeado foi
jogada, arremessada e
reveio na maré alta, foi
subindo os riachos, cachoeiras
escalou, nas tuas mãos ela
irá enfim chegar, eu sei,
à fresta do seu olhar
irás decifrar, eu sei,
irás procurar, estou
ali, bem atrás da nuvem,
estás, eu sei, aflita, mas
eu estou bem ali, raflésia
enorme, tão perto estou
que vou te abraçar, vou sim!
Vou te calar em carinho,
vou sim! Sufocar as dores,
vou sim! Calar, sufocar...

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