sábado, 30 de novembro de 2019

Transparências



Este foi o meu segundo livro de poemas, publicado 2014, trazendo versos elaborados na sua maioria em 2009. A capa vem originalmente de uma foto de Leilton Damascena, mostrando nossas sobras no solo esturricado da Caatinga.

Ele caminhou nos sítios da infância,
no baldio, onde o chumbo era derretido
para fazer os goleiros do botão;
no cruzamento, onde as bicicletas
chocaram-se, porque não tinham freio;
no campinho de futebol da cento e oito,
onde o gol não logrou ser convertido.

Ele caminhou de novo, reviu tudo.
A trajetória perdida da bola,
o prateado borbulhante do chumbo
na forma de fósforos Guarani,
a velocidade irresponsável.

Ele voltou. Ele retornou. Ele reveio.
Tanto voltou que a criança o percebeu.
Ergueu-se doída, levou a bicicleta
amarela, amassada, desenfreada.


Olhando de soslaio o vulto futuro,
O menino percebeu o homem grisalho,
avançado na idade e sorriu-lhe
mostrando-lhe o goleiro de chumbo.


O menino percebeu e veio até ele.
Veio em busca do carinho, mesmo sendo
seu próprio carinho. Amam-se o menino
e o velho. Amam-se sinceramente,
sensualmente mesclados nos seus corpos
nos recônditos lugares da infância.

(p. 67)


Nenhum comentário:

Postar um comentário