quinta-feira, 26 de abril de 2012

Da pesquisa para a extensão, da extensão para a pesquisa: a continuidade numa Universidade fragmentada.

A prática da extensão numa instituição de ensino superior esbarra na dificuldade em se delimitar de forma objetiva o que é extensão e o que é pesquisa. Esta falta de definição faz com que parte dos recursos que deviam servir ao desenvolvimento de atividades de extensão acabe sendo utilizado na pesquisa. Para evitar esta sangria de recursos, a comunidade universitária envolvida com extensão debate freqüentemente a delimitação da atividade de extensão. Esta separação é difícil, pois dentro do todo universitário, as duas atividades dialogam e complementam-se, sendo que esta discussão está relacionada ao fato da Universidade moderna ser um todo orgânico, que é  fragmentado por razões logísticas.
Uma Universidade faz atividades em três direções distintas, mas interdependentes, que trocam informações entre si. São estas atividades de ensino, de pesquisa e de extensão. É ponto pacífico que uma Universidade deve privilegiar as três atividades de forma harmônica. Também é claro que este triângulo nunca será isósceles, pois cada uma das atividades são executadas por pessoas das mais diversas formações e dependendo das diretrizes destas pessoas a IES terá uma hipertrofia em alguma destas atividades. É muito comum que Universidades tenham uma hipertrofia no ensino, com atividades de pesquisa e extensão inconspícuas; é o caso de algumas Universidades particulares, que têm sido pressionadas para o desenvolvimento das outras duas atividades em suas dependências. Entre as Universidades públicas é comum a hipertrofia das atividades de pesquisa e ensino, com atividades de extensão insignificantes. Contudo existem pressões e incentivos do governo federal no sentido de favorecer a extensão nas IES públicas.
A extensão é essencial para a integração da Universidade na comunidade. As atividades de extensão formam uma via onde o professor pesquisador vê os resultados de seu trabalho sendo observados, manipulados, utilizados pela comunidade. Ao mesmo tempo, a extensão é a oportunidade da comunidade expressar as suas necessidades à Universidade. Tudo isso é muito complexo. Passa por problemas de inteligibilidade, tanto num sentido como no outro, ou seja, a sociedade externa à IES tem dificuldade de entender a comunidade universitária e vice-versa. Outro problema é como viabilizar este contato, como trazer a sociedade para a Universidade e como levar a Universidade para a sociedade? Existem diversos mecanismos que podem funcionar, mas tudo tem que ser planejado com cuidado para não desperdiçar os recursos exíguos. Então não se deve pensar que a extensão é uma atividade simples: muito longe disso.
As atividades de extensão são aqui entendidas como ações geradas na comunidade universitária em direção à sociedade em que esta instituição está inserida. Um exemplo disto é o projeto “Implantação da Biblioteca do Dispensário Santana”. A implantação em si da Biblioteca na conhecida instituição católica não é uma atividade de extensão, mesmo que seja planejada e executada por um professor da Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS), mas a partir do momento que o projeto de implantação da Biblioteca passa a fazer parte dos projetos ordinariamente tramitados dentro da UEFS e esta IES passa a direcionar recursos para desenvolvimento do projeto, recursos estes que podem ser traduzidos em material de consumo, equipamentos, recursos humanos, bolsas de estudo etc., a partir deste momento temos uma atividade de extensão.
A atividade de extensão articula-se com a atividade de ensino principalmente quando o estudante universitário executa parte dos procedimentos do projeto. Este participação do estudante é uma atividade dupla. Primeiro o estudante ajuda na manutenção do projeto em si e depois tem a oportunidade de agir na sociedade, orientado pelos docentes envolvidos no projeto. A participação do estudante é essencial, sem eles a ação social do projeto é mínima, pois os docentes envolvidos, assoberbados com suas obrigações ordinárias dentro da Universidade não têm condições de administrar de forma contínua os projetos de extensão. Em contrapartida, o estudante universitário tem a oportunidade de praticar seu aprendizado acadêmico, tornando-o profissional mais capaz. O corpo discente é o que a Universidade tem de mais precioso, é a própria razão de sua existência, o estudante enrobustecido pela carga de conhecimento que adquire durante o desenvolvimento do seu curso terá a oportunidade de lapidar este conhecimento na prática da pesquisa, onde produzirá conhecimento e na extensão, onde utilizará seu conhecimento para favorecer a comunidade.
A atividade de extensão também se articula com a pesquisa. Muitas atividades de pesquisa acabam produzindo extensão e vice-versa. Digamos que um grupo de pesquisadores está interessado na ocorrência de verminoses numa comunidade rural. Monta-se um projeto, combina-se com a comunidade alvo e exames parasitológicos de fezes são feitos entre os integrantes da sociedade. Como resultado temos uma lista de parasitas encontrados, temos quais são os mais freqüentes, podemos associar estes resultados aos hábitos higiênicos da população, às suas práticas profissionais e muito mais. É um trabalho importante para a comunidade científica e para os governantes, que precisam de parâmetros de qualidade para balizar suas políticas de saúde, por isso o trabalho deve ser publicado, encerrando o ciclo da pesquisa: Elaboração do projeto, execução do projeto, publicação dos resultados, que gerará base para a elaboração de mais projetos e assim por diante. Em nenhum momento deste projeto ocorreu extensão. Os pesquisadores saíram da Universidade, agiram dentro da sociedade, lidaram com problemas importantes dentro da sociedade, esta atividade produziu bibliografia importante, mas não houve a extensão. A sociedade foi apenas objeto da pesquisa, nada desta atividade retornou à sociedade, mesmo se houve publicação em periódico de ampla circulação, os resultados da pesquisa pouco valeram para a sociedade. Mas a partir do momento em que os médicos participantes do projeto retornam para a população estudada e promovem o tratamento das doenças identificadas com o correto receituário, quando os estudantes envolvidos executam atividades educacionais visando a mudança de hábitos higiênicos da comunidade, quando a comunidade estudada interage expressando o que ela realmente quer que os pesquisadores respondam e pesquisem e, principalmente, se toda essa atividade faz parte de um todo integrado (um projeto) no sentido de devolver para a população os resultados da pesquisa, neste momento temos a extensão.
É comum a extensão produzir ciência, pois sendo uma atividade desenvolvida com base num projeto, que tem objetivos razoáveis e métodos exequíveis, metas, cronograma de execução e recursos suficientes, é de se esperar que os resultados sejam publicáveis e não surpreenderá se a prática do projeto originar questionamentos que possam ser respondidos utilizando-se os métodos científicos. No exemplo do exame parasitológico de fezes de uma comunidade, se as atividades extensionistas deram o resultado esperado, com a mudança do hábito higiênico, algumas parasitoses devem ter sua ocorrência muito reduzida, o que pode ser avaliado através de um contínuo monitoramento da infestação na comunidade. Além das atividades extensionistas existem outros fatores que influenciam a infestação na comunidade, para conhecer estes fatores é necessário propor projetos, executá-los, analisar os resultados comparar com outros já publicados... Em suma: fazer pesquisa.
Assim temos que as três atividades da Universidade (ensino, pesquisa e extensão) são intimamente interligadas. Contudo, a estrutura das Universidades não permite integrar as três atividades. Isso se dá porque a Universidade é dividida em setores hierarquicamente dispostos com pouco diálogo entre hierarquias diferentes. O setor que gerencia a pesquisa, geralmente ligado ao que gerencia a pós-graduação, dialoga pouco tanto com o setor de ensino de graduação, como com o de extensão. Em muitos momentos, os diversos setores hierárquicos atuam de forma antagônica, principalmente na execução orçamentária.
Uma parte significativa dos recursos que entram na Universidade é direcionada à pesquisa e à sua filha primogênita a pós-graduação. Para se ter acesso a estes recursos os professores pesquisadores precisam passar por diversos filtros, que são relacionados à sua produção científica e ao impacto de suas publicações. Um professor pesquisador que se dedica também à extensão terá, logicamente, seu acesso aos recursos reduzidos. A extensão universitária não tem mecanismos similares de acesso aos recursos, de forma que o professor pesquisador não é estimulado a abraçar a extensão como uma atividade profissional. Quem faz esta atividade na Universidade, muitas vezes a faz por puro diletantismo. Para reverter este quadro é necessário que a extensão tenha uma produção de impacto, mas esta produção não pode sofrer a mesma avaliação que os setores ligados à pesquisa sofrem. Se a produção publicada da extensão é reduzida, a sua avaliação em termos de qualidade está longe até de ser proposta.
Além disso, como os recursos são exíguos, muitos pesquisadores não conquistam proventos suficientes para o desenvolvimento de seus projetos. Uma solução é disputar os recursos de extensão, onde a falta de uma estruturação (ausência de critérios claros de concessão de bolsas, por exemplo) permite que pesquisadores acabem adquirindo recursos para desenvolvimento de projetos de pesquisa e não de extensão
A produção científica acadêmica, principalmente aquela não tecnológica, está distante dos anseios da comunidade. Um caso é emblemático. Uma mãe e sua filha estão com um filhote de pássaro na palma da mão, procuraram o laboratório de ornitologia da Universidade para que ali os biólogos cuidassem do pequeno. Acontece que no laboratório não se cuidava de animais vivos. Pelo contrário. Ali os animais eram sacrificados, empalhados e armazenados na coleção científica. Ora, a mãe e sua filha saíram indignadas. A duas representantes da sociedade simplesmente não sabiam o que se faz realmente num laboratório de ornitologia, pois nunca foram informadas sobre isso. A extensão pode transferir estas informações para a sociedade de forma correta sem deformação, mas para tanto é necessário a participação dos professores pesquisadores sem prejuízo de suas atividades.
A extensão universitária é muito dependente do grau de abertura para atividades multi e interdisciplinares. Estas atividades são francamente inibidas pela estrutura da Universidade, fechada em suas hierarquias. Na Universidade Estadual de Feira de Santana, se um professor do departamento de biologia quer desenvolver um projeto no departamento de letras ou de geografia, ele tem que passar seu projeto dentro do departamento de Biologia. Na maioria das vezes, os colegas que participam dos fóruns julgadores destes projetos têm dificuldade para analisar projetos que não estão perfeitamente enquadrados na sua área de conhecimento e acabam por abortar os projetos logo no seu nascedouro. Às vezes existe alguma boa vontade na tramitação dos projetos, eles são enviados para pareceristas externos ao grupo, mas como isto é muito surpreendente e muito diferente, os projetos acabam sendo rejeitados, muitas vezes ignorados ou sua tramitação é tão lenta que o grupo gerador do projeto acaba se desarticulando. A extensão deve ser trabalhada em cada nível da hierarquia universitária, como as atividades de pesquisa, estando cada nível pronto para receber e avaliar cada projeto com brevidade e competência.
Muitos problemas vividos atualmente nas Universidades, como consumo de drogas no interior do Campus, presença da polícia para segurança das pessoas que circulam nas dependências da instituição, destino correto do lixo gerado durante as atividades universitárias, restaurante universitário, atividades artísticas e esportivas etc., podem ser tratados de forma bastante produtiva através da extensão universitária e através deste processo pode ocorrer produção de conhecimento de primeira linha.
Os gestores da Universidade, muito intoxicados com a luta política nos seus diversos níveis, aparentemente não se deram conta disso, mas ainda não é tarde demais. Basta uma mudança de atitude, um sentar mais demorado e um acostumar de vistas diante da complexidade que se apresenta, para ver o óbvio: a extensão é a solução.
Para tanto, precisamos reduzir o isolamento dos departamentos e institutos, criar mais grupos de trabalho interdisciplinares, envolver os estudantes, criar mecanismos de publicação de trabalhos de extensão, direcionar recursos e executá-los sem rodeios. Precisamos levar o conhecimento da tramitação de documentos a todos os níveis universitários (aos estudantes, aos funcionários, aos professores e à comunidade), para que os processos corram sem atropelos e retornos, para que possamos buscar a redução de passos administrativos.

Precisamos criar uma continuidade entre os procedimentos e entre os setores, diminuindo a fragmentação da Universidade, sem o que a nossa comunidade tende ao brejo aos pedaços, sem esperança de vida.

Feira de Santana, abr 2012.

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