O
último romance de Machado de Assis discorre sobre uma história banal. A jovem
viúva Fidélia, encontra um novo amor em Tristão. Eles se casam e migram para
Lisboa, onde Tristão é político prestigiado.
A
dramaticidade é construída a partir do Casal Aguiar, o marido e a esposa: D.
Carmo. Trata-se de um casal que não teve filhos. O desejo da paternidade e de
oferecer o amor que tinham para dar, fá-los, primeiro, adotando um cão, que
acaba por morrer. Depois recebem como afilhado o filho de um casal de amigos:
Tristão. Contudo o casal de amigos viajam para Portugal e desaparecem com a
criança. Finalmente adotam Fidélia, jovem viúva abandonada pela família.
Muitos
anos depois de sua partida Tristão volta já homem feito e o casal Aguiar vive
um ano em celestial alegria com os dois filhos postiços, que apaixonam-se e
casam-se. Mas a alegria transforma-se em profunda melancolia, quando o casal
viaja até Lisboa e lá Tristão assume a carreira política, deixando o casal de
velhos no Brasil, tristes e solitários.
A
história seria banal se não fosse a forma como o autor a contou. Machado de
Assis cria um personagem, o Conselheiro Aires, um diplomata aposentado, que há
um ano retornou para o Brasil e agora dedica-se a fazer anotações sobre o que se
passa com seus conhecidos.
O
romance se desenvolve entre 9 de janeiro de 1888 e uma data indeterminada
depois de agosto de 1889. Serve-se, como pano de fundo, o processo da abolição
da escravatura.
O
romance inicia-se com a visita que Aires e sua irmã Rita fazem aos túmulos dos
parentes. Ali encontram a jovem viúva Fidélia, que vai render homenagem ao
marido. Nesta ocasião Rita aposta com Aires que Fidélia não deixará sua viuvez,
enquanto que Aires afirma que a deixará assim que encontrar um bom partido.
Aires,
como o próprio autor diz na "advertência" é uma personagem que
Machado de Assis já havia usado no romance "Esaú e Jacó", onde também
é referido como uma pessoa que escreve um Memorial.
Inicialmente
este bom partido bem que poderia ser o próprio Aires e, sem declarar de forma
aberta esta intenção, ele começa a frequentar a casa dos Aguiar. O marido, é
um banqueiro e D. Carmo, a esposa é uma senhora prendada e melancólica, que
vive para dar amor à sua filha postiça e para sentir saudades do seu filho
postiço Tristão.
Aires-Machado,
constrói as personagens com precisão. Fidélia casou-se sem a permissão paterna,
o Barão de Santa Pia, porém logo depois de casada o marido veio a falecer. O
pai não lhe perdoou a desobediência e a manteve afastada. A solidão da viúva
encontrou-se com as saudades filiais de D. Carmo e seu marido. Sendo uma pessoa
encantadora e sendo encantadores os velhos, adotaram-se mutuamente como pais e
filha.
O
Barão de Santa Pia fornece o mote para estender o pano de fundo. Latifundiário
da Paraíba do Sul, vê com preocupação o movimento pela abolição. Percebendo
tudo inevitável, o Barão liberta todos os seus escravos antes que a abolição se
consuma. Os escravos libertos não têm para onde ir e ficam na fazenda
trabalhando para o Barão. Este adoece e morre, sem voltar a falar com a filha,
que herda a propriedade e o gerenciamento dos escravos libertos. Antes de
casar-se Fidélia dispõe-se a fender a propriedade, mas Tristão a convence de
doar a propriedade aos libertos, para que eles pudessem dar um destino às suas
próprias vidas.
Fidélia
teve outros pretendentes, como o Osório, que foi miseravelmente rejeitado,
dando como justificativa a necessidade de dedicar-se à viuvez, dando a entender
que não era ainda a pessoa ideal.
De
repente chega-se notícia de Tristão e logo este vem ao Brasil para visitar os
padrinhos, que o recebem carinhosamente.
Depois
de alguns meses Tristão e Fidélia estão enamorados.
A
história toda é contada aos fragmentos, através das visitas quase semanais que
Aires faz aos Aguiar, ou através de informações que Rita lhe trás ou através
de notícias de terceiros como o desembargador Campos, tio de Fidélia e
conhecido de Aires, como também através de terceiros como D. Cesária, mulher
que gosta de falar mal dos outros, sem mal e de todos.
Aires
é um dissimulado, característica associada a sua antiga profissão de diplomata.
Ele pensa antes de falar, fala sempre com discrição e jamais emite uma opinião
que possa ser mal interpretada ou causar alguma polêmica. Mas não passa de um
desocupado que vive a ter conta das outras pessoas para fugir de sua vida
vazia.
Aires-Machado
nos faz ver que todas as relações são, conforme na diplomacia, regidas por
meias palavras e dissimulações. As relações entre as pessoas não deixam de ser
verdadeiras e sinceras, mas nunca tudo é dito completamente, nunca a verdade é
dada de forma límpida.
A
verdade é que a felicidade de Aguiar e sua esposa é insustentável. A verdade é
que o fim reservado para as suas vidas é a solidão, que eles têm apenas um ao
outro, a um certo momento, nem isso. Os Aguiar não querem ver esta realidade
que avança inexorável contra eles, eles lutam contra o abandono que por
qualquer caminho que a história se desenrole parece inevitável: a solidão e
abandono do casal.
Aires
participa ativamente de todo o processo, sua participação, contudo, não é
determinante para o desenrolar, ele é apenas um observador e por ser totalmente
externo à história que narra, de vez em quando é usado pelas outras personagens
como confidente. Como as pessoas lhe confiam segredos, Aires tem um
conhecimento privilegiado sobre todos os outros curiosos que rondam a vida dos
Aguiar (D. Cesária, Rita e até mesmo o tio de Fidélia, o desembargador
Campos.)
As
personagens são todas bem construídas e individualizadas. Os principais: Aires,
os Aguiar, Tristão e Fidélia são os mais bem trabalhados. Mas as personagens
secundárias também têm uma personalidade definida, como o Barão de Santa-Pia,
que apesar de não ser exaustivamente descrito, tem uma individualidade
palpável. Também têm personalidade o desembargador Campos, Rita, D. Cesária e
até o marido desta, assim como o pretendente infeliz o Osório. Existem
personagens vazios como Carlos, filho do desembargador que aparece apenas de
forma decorativa, ou o mordomo José que tem alguma construção, mas também é
apenas decorativo.
O
livro trata sobre a solidão da velhice, fala sobre como as pessoas lutam contra
esta solidão e como ela é inevitável. Aires-Machado compara a velhice à morte,
de várias formas e em vários momentos e usa essa comparação para libertar os
jovens da culpa que sentem ao abandonar os velhos. Isso vai contra o senso
comum e não é aceito pelo desembargador Campos, quando isso lhe é afirmado.
Interessante
notar, aproveito aqui a nota de Décio Luís, encontrada na edição do romance que
li (Coleção Páginas Amarelas, vol. 2, editora Expressão e Cultura, 2001) onde
ele afirma que a cena final, em que Aires encontra o casal Aguiar sós e
silenciosamente sentados um diante do outro, como a imagem do casal Machado e
Carolina que "tinham saudades de si mesmos", ou seja, Não só Aires é
uma manifestação de Machado de Assis, mas também o próprio Aguiar. \
Em
certo trecho do romance, Aires-Machado diz estar em outro mundo, pois é
necessária a distância no mar para melhor ver as pessoas na praia. Com este
romance Machado de Assis tenta afastar-se de si mesmo, para ver-se imerso na
sociedade e na família, como num
auto-retrato.

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