quinta-feira, 28 de novembro de 2019

"Memorial de Aires" de Machado de Assis



            O último romance de Machado de Assis discorre sobre uma história banal. A jovem viúva Fidélia, encontra um novo amor em Tristão. Eles se casam e migram para Lisboa, onde Tristão é político prestigiado.
            A dramaticidade é construída a partir do Casal Aguiar, o marido e a esposa: D. Carmo. Trata-se de um casal que não teve filhos. O desejo da paternidade e de oferecer o amor que tinham para dar, fá-los, primeiro, adotando um cão, que acaba por morrer. Depois recebem como afilhado o filho de um casal de amigos: Tristão. Contudo o casal de amigos viajam para Portugal e desaparecem com a criança. Finalmente adotam Fidélia, jovem viúva abandonada pela família.
            Muitos anos depois de sua partida Tristão volta já homem feito e o casal Aguiar vive um ano em celestial alegria com os dois filhos postiços, que apaixonam-se e casam-se. Mas a alegria transforma-se em profunda melancolia, quando o casal viaja até Lisboa e lá Tristão assume a carreira política, deixando o casal de velhos no Brasil, tristes e solitários.
            A história seria banal se não fosse a forma como o autor a contou. Machado de Assis cria um personagem, o Conselheiro Aires, um diplomata aposentado, que há um ano retornou para o Brasil e agora dedica-se a fazer anotações sobre o que se passa com seus conhecidos.
            O romance se desenvolve entre 9 de janeiro de 1888 e uma data indeterminada depois de agosto de 1889. Serve-se, como pano de fundo, o processo da abolição da escravatura.
            O romance inicia-se com a visita que Aires e sua irmã Rita fazem aos túmulos dos parentes. Ali encontram a jovem viúva Fidélia, que vai render homenagem ao marido. Nesta ocasião Rita aposta com Aires que Fidélia não deixará sua viuvez, enquanto que Aires afirma que a deixará assim que encontrar um bom partido.
            Aires, como o próprio autor diz na "advertência" é uma personagem que Machado de Assis já havia usado no romance "Esaú e Jacó", onde também é referido como uma pessoa que escreve um Memorial.
            Inicialmente este bom partido bem que poderia ser o próprio Aires e, sem declarar de forma aberta esta intenção, ele começa a frequentar a casa dos Aguiar. O marido, é um banqueiro e D. Carmo, a esposa é uma senhora prendada e melancólica, que vive para dar amor à sua filha postiça e para sentir saudades do seu filho postiço Tristão.
            Aires-Machado, constrói as personagens com precisão. Fidélia casou-se sem a permissão paterna, o Barão de Santa Pia, porém logo depois de casada o marido veio a falecer. O pai não lhe perdoou a desobediência e a manteve afastada. A solidão da viúva encontrou-se com as saudades filiais de D. Carmo e seu marido. Sendo uma pessoa encantadora e sendo encantadores os velhos, adotaram-se mutuamente como pais e filha.
            O Barão de Santa Pia fornece o mote para estender o pano de fundo. Latifundiário da Paraíba do Sul, vê com preocupação o movimento pela abolição. Percebendo tudo inevitável, o Barão liberta todos os seus escravos antes que a abolição se consuma. Os escravos libertos não têm para onde ir e ficam na fazenda trabalhando para o Barão. Este adoece e morre, sem voltar a falar com a filha, que herda a propriedade e o gerenciamento dos escravos libertos. Antes de casar-se Fidélia dispõe-se a fender a propriedade, mas Tristão a convence de doar a propriedade aos libertos, para que eles pudessem dar um destino às suas próprias vidas.
            Fidélia teve outros pretendentes, como o Osório, que foi miseravelmente rejeitado, dando como justificativa a necessidade de dedicar-se à viuvez, dando a entender que não era ainda a pessoa ideal.
            De repente chega-se notícia de Tristão e logo este vem ao Brasil para visitar os padrinhos, que o recebem carinhosamente.
            Depois de alguns meses Tristão e Fidélia estão enamorados.
            A história toda é contada aos fragmentos, através das visitas quase semanais que Aires faz aos Aguiar, ou através de informações que Rita lhe trás ou através de notícias de terceiros como o desembargador Campos, tio de Fidélia e conhecido de Aires, como também através de terceiros como D. Cesária, mulher que gosta de falar mal dos outros, sem mal e de todos.
            Aires é um dissimulado, característica associada a sua antiga profissão de diplomata. Ele pensa antes de falar, fala sempre com discrição e jamais emite uma opinião que possa ser mal interpretada ou causar alguma polêmica. Mas não passa de um desocupado que vive a ter conta das outras pessoas para fugir de sua vida vazia.
            Aires-Machado nos faz ver que todas as relações são, conforme na diplomacia, regidas por meias palavras e dissimulações. As relações entre as pessoas não deixam de ser verdadeiras e sinceras, mas nunca tudo é dito completamente, nunca a verdade é dada de forma límpida.
            A verdade é que a felicidade de Aguiar e sua esposa é insustentável. A verdade é que o fim reservado para as suas vidas é a solidão, que eles têm apenas um ao outro, a um certo momento, nem isso. Os Aguiar não querem ver esta realidade que avança inexorável contra eles, eles lutam contra o abandono que por qualquer caminho que a história se desenrole parece inevitável: a solidão e abandono do casal.
            Aires participa ativamente de todo o processo, sua participação, contudo, não é determinante para o desenrolar, ele é apenas um observador e por ser totalmente externo à história que narra, de vez em quando é usado pelas outras personagens como confidente. Como as pessoas lhe confiam segredos, Aires tem um conhecimento privilegiado sobre todos os outros curiosos que rondam a vida dos Aguiar (D. Cesária, Rita e até mesmo o tio de Fidélia, o desembargador Campos.)
            As personagens são todas bem construídas e individualizadas. Os principais: Aires, os Aguiar, Tristão e Fidélia são os mais bem trabalhados. Mas as personagens secundárias também têm uma personalidade definida, como o Barão de Santa-Pia, que apesar de não ser exaustivamente descrito, tem uma individualidade palpável. Também têm personalidade o desembargador Campos, Rita, D. Cesária e até o marido desta, assim como o pretendente infeliz o Osório. Existem personagens vazios como Carlos, filho do desembargador que aparece apenas de forma decorativa, ou o mordomo José que tem alguma construção, mas também é apenas decorativo.
            O livro trata sobre a solidão da velhice, fala sobre como as pessoas lutam contra esta solidão e como ela é inevitável. Aires-Machado compara a velhice à morte, de várias formas e em vários momentos e usa essa comparação para libertar os jovens da culpa que sentem ao abandonar os velhos. Isso vai contra o senso comum e não é aceito pelo desembargador Campos, quando isso lhe é afirmado.
            Interessante notar, aproveito aqui a nota de Décio Luís, encontrada na edição do romance que li (Coleção Páginas Amarelas, vol. 2, editora Expressão e Cultura, 2001) onde ele afirma que a cena final, em que Aires encontra o casal Aguiar sós e silenciosamente sentados um diante do outro, como a imagem do casal Machado e Carolina que "tinham saudades de si mesmos", ou seja, Não só Aires é uma manifestação de Machado de Assis, mas também o próprio Aguiar. \
            Em certo trecho do romance, Aires-Machado diz estar em outro mundo, pois é necessária a distância no mar para melhor ver as pessoas na praia. Com este romance Machado de Assis tenta afastar-se de si mesmo, para ver-se imerso na sociedade e na família, como num  auto-retrato.


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