quinta-feira, 12 de abril de 2012

Onze de setembro




Estou aqui sendo inundado por informações e recordações sobre os atentados contra o Centro de Comércio Mundial de Nova Iorque, que vitimou mais de três milhares de pessoas e mudou os caminhos da história.

Devo responder à pergunta feita pelo repórter: “O que você estava fazendo em onze de setembro de 2001?”

O pior é que eu me lembro. Eu estava muito concentrado, pois apresentaria para os meus colegas, pela primeira vez, a minha tese de doutorado. A universidade de São Paulo, e as pós-graduações em geral, exigem uma apresentação do doutorando, chamada “qualificação”, quando ele mostra domínio dos conceitos que ele utilizará no seu trabalho de doutoramento. É um momento de tensão, onde uma reprovação implica em forte desmerecimento e uma das poucas oportunidades em que o doutorando é realmente avaliado.

Preparei minhas transparências e melhorei uma apresentação que tinha feito na Inglaterra e enfrentei meus colegas numa prévia do que seria minha qualificação. A apresentação aconteceu numa sala do PAT 1, no  primeiro módulo do Campus da Universidade Estadual de Feira de Santana.  Foi um desastre. Minha orientadora, prof. Ana Maria Giulietti, adormeceu durante minha apresentação, meus colegas criticaram a ordem, a forma, os conceitos, disseram-me que daquela forma seria reprovado. Fiquei desanimado.

Saí da sala  da apresentação  e subi a passarela que vai do pavilhão à cantina, carregando o retroprojetor, minhas transparências, minha vida aos cacos, voando aos pedaços, inúteis, como os papéis que eu via voando de um prédio que desmoronava na televisão da cantina, todos estavam paralisados assistindo o noticiário.

- Que houve? –Perguntei para uma aluna que estava à minha frente...
- É as torres gêmeas de Nova Iorque...

Olhei para Televisão tentando entender. Vanilda tinha me falado, logo que cheguei, que os Estados Unidos tinham sido atacados. Mas eu estava tão concentrado na minha apresentação que não dei a devida atenção. Então vi minhas transparências sendo levadas pelo vento e vi os papeis sendo levados pela nuvem de destroços das Torres Gêmeas e me ocorreu que aquela nuvem estava cheia de fragmentos de corpos triturados e incinerados e escapou de minha boca:

- São americanos vaporizados...

A menina riu. Achou que tinha feito um gracejo. Numa daquelas confusões que acontecem na minha vida, em que eu falo coisas e de repente tudo fica interpretado de uma forma diversa do que penso, mesmo que o que pense seja até pior...

Os estadunidenses  por muitos anos invadiram, assassinaram, derrubaram governos legítimos, violentaram leis nacionais e naquele momento viviam o ápice de poder no mundo. Um poder só comparável ao Império Romano antigo, no qual eles gostam tanto de se espelhar.

Os estadunidenses foram a única nação do mundo que se atreveu a lançar um ataque nuclear contra outra nação. Um ato que para sempre colocará nomes como Henry Trumann como um dos maiores genocidas da história. Os estadunidenses agiram de forma insidiosa e foram determinantes na queda do Governo Allende do Chile. Os Estados Unidos estão no centro da deflagração e da manutenção do terrível regime militar brasileiro. A lista é longa: Vietnam, Granada, Filipinas, Palestina...

Hoje, uma década depois dos atentados, depois da invasão do Afeganistão, depois da invasão do Iraque, depois da queda e execução de Sadam Hussein, depois do assassinato de Osama Bin Laden. Em plena época da primavera árabe, com a queda de Mubarack do Egito, com Kadafi já fora do poder na Líbia, depois da profunda crise econômica que os Estados Unidos levaram o mundo... depois de tudo isso, reluto em chamar os atentados de “terroristas”.

Eu acredito que os ataques foram legítimos ataques de guerra. Uma guerra que foi declarada, a organização Al Qaeda tinham formalmente declarado guerra aos Estados Unidos. O próprio Centro de Comércio Mundial tinha sido alvo de ataques. A nação só não temia o ataque por que, diante da prosperidade do período Bill Clinton, diante do desmoronamento da União Soviética, parecia que os Estados Unidos viviam num Olimpo inatingível. O estadunidense médio não precisava se preocupar com a fome no chifre da áfrica, não precisava se preocupar com a miséria do mundo, que fornece diamantes para seus monumentos fúteis, que fornece petróleo para aquecer seus lares, miséria terrível que são submetidos milhares e milhares para manter um único país próspero, exorbitantemente próspero.

Finalmente houve um ataque. A águia reagiu com fúria, destruindo e matando,  matando estrangeiros às centenas de milhares, mas também sacrificando seus próprios filhos. Lembro-me de um dia, anos e anos depois dos ataques, que o número de soldados estadunidenses mortos no Iraque já superava os mortos no Onze de Setembro. O que eles estavam fazendo no Iraque, não era a justiça internacional, uma vez que Sadam era aliado estadunidense, seu fabuloso exército fora montado, gatilho por gatilho, pelos estadunidenses.  Da mesma forma que os Talibãs afegãos, receberam armas, treinamento  e dinheiro estadunidense, lembro-me que até o Rambo os ajudou...  O que operava no Iraque era a sede de petróleo, a visão de lucros exorbitantes,  além da sede de vingança.

Eis o ataque. A guerra. A crise. Obama assassinou o Osama, como Osama assassinaria o Obama se tivesse oportunidade. Por que será que Osama não foi conduzido para justiça? Mesmo aquela “justiça” de Guantânamo, manchada de tortura, quando os estadunidenses vestiram os uniformes negros dos nazi-facistas que eles diziam-se contrários? Por que? Porque Osama sabia demais, óbvio. Talvez, se Osama pudesse falar  e pudesse ser ouvido, teria até mãos estadunidenses diretamente envolvidas no atentado do Onze de Setembro: pode-se dizer que seria um suicídio jurídico!

Um terremoto e um tsunami ajudaram a China a superar o Japão como segunda economia mundial. Analistas de economia estimam que antes de 2020, os chineses superarão os estadunidenses como economia mundial.  Até o Brasil andou falando mais alto nos últimos anos. Sempre serão importantes no mundo, mas não estão sós.

As pessoas que trabalhavam no Centro de Comércio Mundial agiam no centro do poder  estadunidense,  existiam ali até escritórios do serviço de inteligência. As pessoas que estavam ali não eram inocentes. Eram os mantenedores dos mecanismos de poder dos Estados Unidos no mundo. Estavam longe de ser inocentes.

Obama diz que os Estados Unidos devem levar uma mensagem positiva aos corações das pessoas, contudo, o mensageiro, já está com as mãos sujas de sangue.

Salvador, 11 set 2011.

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