Estou aqui sendo inundado por informações e recordações
sobre os atentados contra o Centro de Comércio Mundial de Nova Iorque, que
vitimou mais de três milhares de pessoas e mudou os caminhos da história.
Devo responder à pergunta feita pelo repórter: “O que você
estava fazendo em onze de setembro de 2001?”
O pior é que eu me lembro. Eu estava muito concentrado, pois
apresentaria para os meus colegas, pela primeira vez, a minha tese de
doutorado. A universidade de São Paulo, e as pós-graduações em geral, exigem
uma apresentação do doutorando, chamada “qualificação”, quando ele mostra
domínio dos conceitos que ele utilizará no seu trabalho de doutoramento. É um
momento de tensão, onde uma reprovação implica em forte desmerecimento e uma
das poucas oportunidades em que o doutorando é realmente avaliado.
Preparei minhas transparências e melhorei uma apresentação
que tinha feito na Inglaterra e enfrentei meus colegas numa prévia do que seria
minha qualificação. A apresentação aconteceu numa sala do PAT 1, no primeiro módulo do Campus da Universidade
Estadual de Feira de Santana. Foi um
desastre. Minha orientadora, prof. Ana Maria Giulietti, adormeceu durante minha
apresentação, meus colegas criticaram a ordem, a forma, os conceitos, disseram-me
que daquela forma seria reprovado. Fiquei desanimado.
Saí da sala da
apresentação e subi a passarela que vai
do pavilhão à cantina, carregando o retroprojetor, minhas transparências, minha
vida aos cacos, voando aos pedaços, inúteis, como os papéis que eu via voando
de um prédio que desmoronava na televisão da cantina, todos estavam paralisados
assistindo o noticiário.
- Que houve? –Perguntei para uma aluna que estava à minha
frente...
- É as torres gêmeas de Nova Iorque...
Olhei para Televisão tentando entender. Vanilda tinha me
falado, logo que cheguei, que os Estados Unidos tinham sido atacados. Mas eu
estava tão concentrado na minha apresentação que não dei a devida atenção.
Então vi minhas transparências sendo levadas pelo vento e vi os papeis sendo
levados pela nuvem de destroços das Torres Gêmeas e me ocorreu que aquela nuvem
estava cheia de fragmentos de corpos triturados e incinerados e escapou de
minha boca:
- São americanos vaporizados...
A menina riu. Achou que tinha feito um gracejo. Numa
daquelas confusões que acontecem na minha vida, em que eu falo coisas e de
repente tudo fica interpretado de uma forma diversa do que penso, mesmo que o
que pense seja até pior...
Os estadunidenses por
muitos anos invadiram, assassinaram, derrubaram governos legítimos, violentaram
leis nacionais e naquele momento viviam o ápice de poder no mundo. Um poder só
comparável ao Império Romano antigo, no qual eles gostam tanto de se espelhar.
Os estadunidenses foram a única nação do mundo que se
atreveu a lançar um ataque nuclear contra outra nação. Um ato que para sempre
colocará nomes como Henry Trumann como um dos maiores genocidas da história. Os
estadunidenses agiram de forma insidiosa e foram determinantes na queda do
Governo Allende do Chile. Os Estados Unidos estão no centro da deflagração e da
manutenção do terrível regime militar brasileiro. A lista é longa: Vietnam,
Granada, Filipinas, Palestina...
Hoje, uma década depois dos atentados, depois da invasão do
Afeganistão, depois da invasão do Iraque, depois da queda e execução de Sadam
Hussein, depois do assassinato de Osama Bin Laden. Em plena época da primavera
árabe, com a queda de Mubarack do Egito, com Kadafi já fora do poder na Líbia,
depois da profunda crise econômica que os Estados Unidos levaram o mundo...
depois de tudo isso, reluto em chamar os atentados de “terroristas”.
Eu acredito que os ataques foram legítimos ataques de
guerra. Uma guerra que foi declarada, a organização Al Qaeda tinham formalmente
declarado guerra aos Estados Unidos. O próprio Centro de Comércio Mundial tinha
sido alvo de ataques. A nação só não temia o ataque por que, diante da
prosperidade do período Bill Clinton, diante do desmoronamento da União
Soviética, parecia que os Estados Unidos viviam num Olimpo inatingível. O
estadunidense médio não precisava se preocupar com a fome no chifre da áfrica,
não precisava se preocupar com a miséria do mundo, que fornece diamantes para
seus monumentos fúteis, que fornece petróleo para aquecer seus lares, miséria
terrível que são submetidos milhares e milhares para manter um único país
próspero, exorbitantemente próspero.
Finalmente houve um ataque. A águia reagiu com fúria,
destruindo e matando, matando
estrangeiros às centenas de milhares, mas também sacrificando seus próprios
filhos. Lembro-me de um dia, anos e anos depois dos ataques, que o número de
soldados estadunidenses mortos no Iraque já superava os mortos no Onze de
Setembro. O que eles estavam fazendo no Iraque, não era a justiça
internacional, uma vez que Sadam era aliado estadunidense, seu fabuloso
exército fora montado, gatilho por gatilho, pelos estadunidenses. Da mesma forma que os Talibãs afegãos,
receberam armas, treinamento e dinheiro
estadunidense, lembro-me que até o Rambo os ajudou... O que operava no Iraque era a sede de
petróleo, a visão de lucros exorbitantes,
além da sede de vingança.
Eis o ataque. A guerra. A crise. Obama assassinou o Osama,
como Osama assassinaria o Obama se tivesse oportunidade. Por que será que Osama
não foi conduzido para justiça? Mesmo aquela “justiça” de Guantânamo, manchada
de tortura, quando os estadunidenses vestiram os uniformes negros dos
nazi-facistas que eles diziam-se contrários? Por que? Porque Osama sabia
demais, óbvio. Talvez, se Osama pudesse falar
e pudesse ser ouvido, teria até mãos estadunidenses diretamente
envolvidas no atentado do Onze de Setembro: pode-se dizer que seria um suicídio
jurídico!
Um terremoto e um tsunami ajudaram a China a superar o Japão
como segunda economia mundial. Analistas de economia estimam que antes de 2020,
os chineses superarão os estadunidenses como economia mundial. Até o Brasil andou falando mais alto nos
últimos anos. Sempre serão importantes no mundo, mas não estão sós.
As pessoas que trabalhavam no Centro de Comércio Mundial
agiam no centro do poder
estadunidense, existiam ali até
escritórios do serviço de inteligência. As pessoas que estavam ali não eram
inocentes. Eram os mantenedores dos mecanismos de poder dos Estados Unidos no
mundo. Estavam longe de ser inocentes.
Obama diz que os Estados Unidos devem levar uma mensagem
positiva aos corações das pessoas, contudo, o mensageiro, já está com as mãos
sujas de sangue.
Salvador, 11 set 2011.
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