A prática da extensão numa instituição de ensino superior esbarra na
dificuldade em se delimitar de forma objetiva o que é extensão e o que é
pesquisa. Esta falta de definição faz com que parte dos recursos que deviam
servir ao desenvolvimento de atividades de extensão acabe sendo utilizado na
pesquisa. Para evitar esta sangria de recursos, a comunidade universitária
envolvida com extensão debate freqüentemente a delimitação da atividade de
extensão. Esta separação é difícil, pois dentro do todo universitário, as duas
atividades dialogam e complementam-se, sendo que esta discussão está
relacionada ao fato da Universidade moderna ser um todo orgânico, que é fragmentado por razões logísticas.
Uma Universidade faz atividades em três direções distintas, mas
interdependentes, que trocam informações entre si. São estas atividades de
ensino, de pesquisa e de extensão. É ponto pacífico que uma Universidade deve privilegiar
as três atividades de forma harmônica. Também é claro que este triângulo nunca
será isósceles, pois cada uma das atividades são executadas por pessoas das
mais diversas formações e dependendo das diretrizes destas pessoas a IES terá
uma hipertrofia em alguma destas atividades. É muito comum que Universidades
tenham uma hipertrofia no ensino, com atividades de pesquisa e extensão
inconspícuas; é o caso de algumas Universidades particulares, que têm sido
pressionadas para o desenvolvimento das outras duas atividades em suas
dependências. Entre as Universidades públicas é comum a hipertrofia das
atividades de pesquisa e ensino, com atividades de extensão insignificantes.
Contudo existem pressões e incentivos do governo federal no sentido de
favorecer a extensão nas IES públicas.
A extensão é essencial para a integração da Universidade na comunidade.
As atividades de extensão formam uma via onde o professor pesquisador vê os
resultados de seu trabalho sendo observados, manipulados, utilizados pela
comunidade. Ao mesmo tempo, a extensão é a oportunidade da comunidade expressar
as suas necessidades à Universidade. Tudo isso é muito complexo. Passa por
problemas de inteligibilidade, tanto num sentido como no outro, ou seja, a
sociedade externa à IES tem dificuldade de entender a comunidade universitária
e vice-versa. Outro problema é como viabilizar este contato, como trazer a
sociedade para a Universidade e como levar a Universidade para a sociedade? Existem
diversos mecanismos que podem funcionar, mas tudo tem que ser
planejado com cuidado para não desperdiçar os recursos exíguos. Então não se
deve pensar que a extensão é uma atividade simples: muito longe disso.
As atividades de extensão são aqui entendidas como ações geradas na
comunidade universitária em direção à sociedade em que esta instituição está
inserida. Um exemplo disto é o projeto “Implantação da Biblioteca do
Dispensário Santana”. A implantação em si da Biblioteca na conhecida
instituição católica não é uma atividade de extensão, mesmo que seja planejada
e executada por um professor da Universidade Estadual de Feira de Santana
(UEFS), mas a partir do momento que o projeto de implantação da Biblioteca
passa a fazer parte dos projetos ordinariamente tramitados dentro da UEFS e
esta IES passa a direcionar recursos para desenvolvimento do projeto, recursos
estes que podem ser traduzidos em material de consumo, equipamentos, recursos
humanos, bolsas de estudo etc., a partir deste momento temos uma atividade de
extensão.
A atividade de extensão articula-se com a atividade de ensino
principalmente quando o estudante universitário executa parte dos procedimentos
do projeto. Este participação do estudante é uma atividade dupla. Primeiro o
estudante ajuda na manutenção do projeto em si e depois tem a oportunidade de
agir na sociedade, orientado pelos docentes envolvidos no projeto. A
participação do estudante é essencial, sem eles a ação social do projeto é
mínima, pois os docentes envolvidos, assoberbados com suas obrigações
ordinárias dentro da Universidade não têm condições de administrar de forma
contínua os projetos de extensão. Em contrapartida, o estudante universitário
tem a oportunidade de praticar seu aprendizado acadêmico, tornando-o
profissional mais capaz. O corpo discente é o que a Universidade tem de mais
precioso, é a própria razão de sua existência, o estudante enrobustecido pela
carga de conhecimento que adquire durante o desenvolvimento do seu curso terá a
oportunidade de lapidar este conhecimento na prática da pesquisa, onde produzirá
conhecimento e na extensão, onde utilizará seu conhecimento para favorecer a
comunidade.
A atividade de extensão também se articula com a pesquisa. Muitas
atividades de pesquisa acabam produzindo extensão e vice-versa. Digamos que um
grupo de pesquisadores está interessado na ocorrência de verminoses numa
comunidade rural. Monta-se um projeto, combina-se com a comunidade alvo e exames
parasitológicos de fezes são feitos entre os integrantes da sociedade. Como
resultado temos uma lista de parasitas encontrados, temos quais são os mais
freqüentes, podemos associar estes resultados aos hábitos higiênicos da
população, às suas práticas profissionais e muito mais. É um trabalho
importante para a comunidade científica e para os governantes, que precisam de
parâmetros de qualidade para balizar suas políticas de saúde, por isso o
trabalho deve ser publicado, encerrando o ciclo da pesquisa: Elaboração do
projeto, execução do projeto, publicação dos resultados, que gerará base para a
elaboração de mais projetos e assim por diante. Em nenhum momento deste projeto
ocorreu extensão. Os pesquisadores saíram da Universidade, agiram dentro da
sociedade, lidaram com problemas importantes dentro da sociedade, esta
atividade produziu bibliografia importante, mas não houve a extensão. A
sociedade foi apenas objeto da pesquisa, nada desta atividade retornou à
sociedade, mesmo se houve publicação em periódico de ampla circulação, os
resultados da pesquisa pouco valeram para a sociedade. Mas a partir do momento
em que os médicos participantes do projeto retornam para a população estudada e
promovem o tratamento das doenças identificadas com o correto receituário,
quando os estudantes envolvidos executam atividades educacionais visando a
mudança de hábitos higiênicos da comunidade, quando a comunidade estudada
interage expressando o que ela realmente quer que os pesquisadores respondam e
pesquisem e, principalmente, se toda essa atividade faz parte de um todo
integrado (um projeto) no sentido de devolver para a população os resultados da
pesquisa, neste momento temos a extensão.
É comum a extensão produzir ciência, pois sendo uma atividade
desenvolvida com base num projeto, que tem objetivos razoáveis e métodos
exequíveis, metas, cronograma de execução e recursos suficientes, é de se esperar
que os resultados sejam publicáveis e não surpreenderá se a prática do projeto
originar questionamentos que possam ser respondidos utilizando-se os métodos
científicos. No exemplo do exame parasitológico de fezes de uma comunidade, se
as atividades extensionistas deram o resultado esperado, com a mudança do
hábito higiênico, algumas parasitoses devem ter sua ocorrência muito reduzida,
o que pode ser avaliado através de um contínuo monitoramento da infestação na
comunidade. Além das atividades extensionistas existem outros fatores que
influenciam a infestação na comunidade, para conhecer estes fatores é
necessário propor projetos, executá-los, analisar os resultados comparar com
outros já publicados... Em suma: fazer pesquisa.
Assim temos que as três atividades da Universidade (ensino, pesquisa e
extensão) são intimamente interligadas. Contudo, a estrutura das Universidades
não permite integrar as três atividades. Isso se dá porque a Universidade é
dividida em setores hierarquicamente dispostos com pouco diálogo entre
hierarquias diferentes. O setor que gerencia a pesquisa, geralmente ligado ao
que gerencia a pós-graduação, dialoga pouco tanto com o setor de ensino de
graduação, como com o de extensão. Em muitos momentos, os diversos setores
hierárquicos atuam de forma antagônica, principalmente na execução
orçamentária.
Uma parte significativa dos recursos que entram na Universidade é
direcionada à pesquisa e à sua filha primogênita a pós-graduação. Para se ter
acesso a estes recursos os professores pesquisadores precisam passar por
diversos filtros, que são relacionados à sua produção científica e ao impacto
de suas publicações. Um professor pesquisador que se dedica também à extensão
terá, logicamente, seu acesso aos recursos reduzidos. A extensão universitária
não tem mecanismos similares de acesso aos recursos, de forma que o professor
pesquisador não é estimulado a abraçar a extensão como uma atividade
profissional. Quem faz esta atividade na Universidade, muitas vezes a faz por
puro diletantismo. Para reverter este quadro é necessário que a extensão tenha
uma produção de impacto, mas esta produção não pode sofrer a mesma avaliação
que os setores ligados à pesquisa sofrem. Se a produção publicada da extensão é
reduzida, a sua avaliação em termos de qualidade está longe até de ser
proposta.
Além disso, como os recursos são exíguos, muitos pesquisadores não
conquistam proventos suficientes para o desenvolvimento de seus projetos. Uma
solução é disputar os recursos de extensão, onde a falta de uma estruturação
(ausência de critérios claros de concessão de bolsas, por exemplo) permite que
pesquisadores acabem adquirindo recursos para desenvolvimento de projetos de
pesquisa e não de extensão
A produção científica acadêmica, principalmente aquela não tecnológica,
está distante dos anseios da comunidade. Um caso é emblemático. Uma mãe e sua
filha estão com um filhote de pássaro na palma da mão, procuraram o laboratório
de ornitologia da Universidade para que ali os biólogos cuidassem do pequeno.
Acontece que no laboratório não se cuidava de animais vivos. Pelo contrário.
Ali os animais eram sacrificados, empalhados e armazenados na coleção
científica. Ora, a mãe e sua filha saíram indignadas. A duas representantes da
sociedade simplesmente não sabiam o que se faz realmente num laboratório de
ornitologia, pois nunca foram informadas sobre isso. A extensão pode transferir
estas informações para a sociedade de forma correta sem deformação, mas para
tanto é necessário a participação dos professores pesquisadores sem prejuízo de
suas atividades.
A extensão universitária é muito dependente do grau de abertura para
atividades multi e interdisciplinares. Estas atividades são francamente
inibidas pela estrutura da Universidade, fechada em suas hierarquias. Na Universidade
Estadual de Feira de Santana, se um professor do departamento de biologia quer
desenvolver um projeto no departamento de letras ou de geografia, ele tem que
passar seu projeto dentro do departamento de Biologia. Na maioria das vezes, os
colegas que participam dos fóruns julgadores destes projetos têm dificuldade
para analisar projetos que não estão perfeitamente enquadrados na sua área de
conhecimento e acabam por abortar os projetos logo no seu nascedouro. Às vezes
existe alguma boa vontade na tramitação dos projetos, eles são enviados para
pareceristas externos ao grupo, mas como isto é muito surpreendente e muito
diferente, os projetos acabam sendo rejeitados, muitas vezes ignorados ou sua
tramitação é tão lenta que o grupo gerador do projeto acaba se desarticulando.
A extensão deve ser trabalhada em cada nível da hierarquia universitária, como
as atividades de pesquisa, estando cada nível pronto para receber e avaliar
cada projeto com brevidade e competência.
Muitos problemas vividos atualmente nas Universidades, como consumo de
drogas no interior do Campus, presença da polícia para segurança das pessoas
que circulam nas dependências da instituição, destino correto do lixo gerado
durante as atividades universitárias, restaurante universitário, atividades
artísticas e esportivas etc., podem ser tratados de forma bastante produtiva através
da extensão universitária e através deste processo pode ocorrer produção de
conhecimento de primeira linha.
Os gestores da Universidade, muito intoxicados com a luta política nos
seus diversos níveis, aparentemente não se deram conta disso, mas ainda não é
tarde demais. Basta uma mudança de atitude, um sentar mais demorado e um
acostumar de vistas diante da complexidade que se apresenta, para ver o óbvio:
a extensão é a solução.
Para tanto, precisamos reduzir o isolamento dos departamentos e
institutos, criar mais grupos de trabalho interdisciplinares, envolver os
estudantes, criar mecanismos de publicação de trabalhos de extensão, direcionar
recursos e executá-los sem rodeios. Precisamos levar o conhecimento da
tramitação de documentos a todos os níveis universitários (aos estudantes, aos
funcionários, aos professores e à comunidade), para que os processos corram sem
atropelos e retornos, para que possamos buscar a redução de passos
administrativos.
Precisamos criar uma continuidade entre os procedimentos e entre os
setores, diminuindo a fragmentação da Universidade, sem o que a nossa
comunidade tende ao brejo aos pedaços, sem esperança de vida.
Feira de
Santana, abr 2012.