quinta-feira, 26 de abril de 2012

Da pesquisa para a extensão, da extensão para a pesquisa: a continuidade numa Universidade fragmentada.

A prática da extensão numa instituição de ensino superior esbarra na dificuldade em se delimitar de forma objetiva o que é extensão e o que é pesquisa. Esta falta de definição faz com que parte dos recursos que deviam servir ao desenvolvimento de atividades de extensão acabe sendo utilizado na pesquisa. Para evitar esta sangria de recursos, a comunidade universitária envolvida com extensão debate freqüentemente a delimitação da atividade de extensão. Esta separação é difícil, pois dentro do todo universitário, as duas atividades dialogam e complementam-se, sendo que esta discussão está relacionada ao fato da Universidade moderna ser um todo orgânico, que é  fragmentado por razões logísticas.
Uma Universidade faz atividades em três direções distintas, mas interdependentes, que trocam informações entre si. São estas atividades de ensino, de pesquisa e de extensão. É ponto pacífico que uma Universidade deve privilegiar as três atividades de forma harmônica. Também é claro que este triângulo nunca será isósceles, pois cada uma das atividades são executadas por pessoas das mais diversas formações e dependendo das diretrizes destas pessoas a IES terá uma hipertrofia em alguma destas atividades. É muito comum que Universidades tenham uma hipertrofia no ensino, com atividades de pesquisa e extensão inconspícuas; é o caso de algumas Universidades particulares, que têm sido pressionadas para o desenvolvimento das outras duas atividades em suas dependências. Entre as Universidades públicas é comum a hipertrofia das atividades de pesquisa e ensino, com atividades de extensão insignificantes. Contudo existem pressões e incentivos do governo federal no sentido de favorecer a extensão nas IES públicas.
A extensão é essencial para a integração da Universidade na comunidade. As atividades de extensão formam uma via onde o professor pesquisador vê os resultados de seu trabalho sendo observados, manipulados, utilizados pela comunidade. Ao mesmo tempo, a extensão é a oportunidade da comunidade expressar as suas necessidades à Universidade. Tudo isso é muito complexo. Passa por problemas de inteligibilidade, tanto num sentido como no outro, ou seja, a sociedade externa à IES tem dificuldade de entender a comunidade universitária e vice-versa. Outro problema é como viabilizar este contato, como trazer a sociedade para a Universidade e como levar a Universidade para a sociedade? Existem diversos mecanismos que podem funcionar, mas tudo tem que ser planejado com cuidado para não desperdiçar os recursos exíguos. Então não se deve pensar que a extensão é uma atividade simples: muito longe disso.
As atividades de extensão são aqui entendidas como ações geradas na comunidade universitária em direção à sociedade em que esta instituição está inserida. Um exemplo disto é o projeto “Implantação da Biblioteca do Dispensário Santana”. A implantação em si da Biblioteca na conhecida instituição católica não é uma atividade de extensão, mesmo que seja planejada e executada por um professor da Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS), mas a partir do momento que o projeto de implantação da Biblioteca passa a fazer parte dos projetos ordinariamente tramitados dentro da UEFS e esta IES passa a direcionar recursos para desenvolvimento do projeto, recursos estes que podem ser traduzidos em material de consumo, equipamentos, recursos humanos, bolsas de estudo etc., a partir deste momento temos uma atividade de extensão.
A atividade de extensão articula-se com a atividade de ensino principalmente quando o estudante universitário executa parte dos procedimentos do projeto. Este participação do estudante é uma atividade dupla. Primeiro o estudante ajuda na manutenção do projeto em si e depois tem a oportunidade de agir na sociedade, orientado pelos docentes envolvidos no projeto. A participação do estudante é essencial, sem eles a ação social do projeto é mínima, pois os docentes envolvidos, assoberbados com suas obrigações ordinárias dentro da Universidade não têm condições de administrar de forma contínua os projetos de extensão. Em contrapartida, o estudante universitário tem a oportunidade de praticar seu aprendizado acadêmico, tornando-o profissional mais capaz. O corpo discente é o que a Universidade tem de mais precioso, é a própria razão de sua existência, o estudante enrobustecido pela carga de conhecimento que adquire durante o desenvolvimento do seu curso terá a oportunidade de lapidar este conhecimento na prática da pesquisa, onde produzirá conhecimento e na extensão, onde utilizará seu conhecimento para favorecer a comunidade.
A atividade de extensão também se articula com a pesquisa. Muitas atividades de pesquisa acabam produzindo extensão e vice-versa. Digamos que um grupo de pesquisadores está interessado na ocorrência de verminoses numa comunidade rural. Monta-se um projeto, combina-se com a comunidade alvo e exames parasitológicos de fezes são feitos entre os integrantes da sociedade. Como resultado temos uma lista de parasitas encontrados, temos quais são os mais freqüentes, podemos associar estes resultados aos hábitos higiênicos da população, às suas práticas profissionais e muito mais. É um trabalho importante para a comunidade científica e para os governantes, que precisam de parâmetros de qualidade para balizar suas políticas de saúde, por isso o trabalho deve ser publicado, encerrando o ciclo da pesquisa: Elaboração do projeto, execução do projeto, publicação dos resultados, que gerará base para a elaboração de mais projetos e assim por diante. Em nenhum momento deste projeto ocorreu extensão. Os pesquisadores saíram da Universidade, agiram dentro da sociedade, lidaram com problemas importantes dentro da sociedade, esta atividade produziu bibliografia importante, mas não houve a extensão. A sociedade foi apenas objeto da pesquisa, nada desta atividade retornou à sociedade, mesmo se houve publicação em periódico de ampla circulação, os resultados da pesquisa pouco valeram para a sociedade. Mas a partir do momento em que os médicos participantes do projeto retornam para a população estudada e promovem o tratamento das doenças identificadas com o correto receituário, quando os estudantes envolvidos executam atividades educacionais visando a mudança de hábitos higiênicos da comunidade, quando a comunidade estudada interage expressando o que ela realmente quer que os pesquisadores respondam e pesquisem e, principalmente, se toda essa atividade faz parte de um todo integrado (um projeto) no sentido de devolver para a população os resultados da pesquisa, neste momento temos a extensão.
É comum a extensão produzir ciência, pois sendo uma atividade desenvolvida com base num projeto, que tem objetivos razoáveis e métodos exequíveis, metas, cronograma de execução e recursos suficientes, é de se esperar que os resultados sejam publicáveis e não surpreenderá se a prática do projeto originar questionamentos que possam ser respondidos utilizando-se os métodos científicos. No exemplo do exame parasitológico de fezes de uma comunidade, se as atividades extensionistas deram o resultado esperado, com a mudança do hábito higiênico, algumas parasitoses devem ter sua ocorrência muito reduzida, o que pode ser avaliado através de um contínuo monitoramento da infestação na comunidade. Além das atividades extensionistas existem outros fatores que influenciam a infestação na comunidade, para conhecer estes fatores é necessário propor projetos, executá-los, analisar os resultados comparar com outros já publicados... Em suma: fazer pesquisa.
Assim temos que as três atividades da Universidade (ensino, pesquisa e extensão) são intimamente interligadas. Contudo, a estrutura das Universidades não permite integrar as três atividades. Isso se dá porque a Universidade é dividida em setores hierarquicamente dispostos com pouco diálogo entre hierarquias diferentes. O setor que gerencia a pesquisa, geralmente ligado ao que gerencia a pós-graduação, dialoga pouco tanto com o setor de ensino de graduação, como com o de extensão. Em muitos momentos, os diversos setores hierárquicos atuam de forma antagônica, principalmente na execução orçamentária.
Uma parte significativa dos recursos que entram na Universidade é direcionada à pesquisa e à sua filha primogênita a pós-graduação. Para se ter acesso a estes recursos os professores pesquisadores precisam passar por diversos filtros, que são relacionados à sua produção científica e ao impacto de suas publicações. Um professor pesquisador que se dedica também à extensão terá, logicamente, seu acesso aos recursos reduzidos. A extensão universitária não tem mecanismos similares de acesso aos recursos, de forma que o professor pesquisador não é estimulado a abraçar a extensão como uma atividade profissional. Quem faz esta atividade na Universidade, muitas vezes a faz por puro diletantismo. Para reverter este quadro é necessário que a extensão tenha uma produção de impacto, mas esta produção não pode sofrer a mesma avaliação que os setores ligados à pesquisa sofrem. Se a produção publicada da extensão é reduzida, a sua avaliação em termos de qualidade está longe até de ser proposta.
Além disso, como os recursos são exíguos, muitos pesquisadores não conquistam proventos suficientes para o desenvolvimento de seus projetos. Uma solução é disputar os recursos de extensão, onde a falta de uma estruturação (ausência de critérios claros de concessão de bolsas, por exemplo) permite que pesquisadores acabem adquirindo recursos para desenvolvimento de projetos de pesquisa e não de extensão
A produção científica acadêmica, principalmente aquela não tecnológica, está distante dos anseios da comunidade. Um caso é emblemático. Uma mãe e sua filha estão com um filhote de pássaro na palma da mão, procuraram o laboratório de ornitologia da Universidade para que ali os biólogos cuidassem do pequeno. Acontece que no laboratório não se cuidava de animais vivos. Pelo contrário. Ali os animais eram sacrificados, empalhados e armazenados na coleção científica. Ora, a mãe e sua filha saíram indignadas. A duas representantes da sociedade simplesmente não sabiam o que se faz realmente num laboratório de ornitologia, pois nunca foram informadas sobre isso. A extensão pode transferir estas informações para a sociedade de forma correta sem deformação, mas para tanto é necessário a participação dos professores pesquisadores sem prejuízo de suas atividades.
A extensão universitária é muito dependente do grau de abertura para atividades multi e interdisciplinares. Estas atividades são francamente inibidas pela estrutura da Universidade, fechada em suas hierarquias. Na Universidade Estadual de Feira de Santana, se um professor do departamento de biologia quer desenvolver um projeto no departamento de letras ou de geografia, ele tem que passar seu projeto dentro do departamento de Biologia. Na maioria das vezes, os colegas que participam dos fóruns julgadores destes projetos têm dificuldade para analisar projetos que não estão perfeitamente enquadrados na sua área de conhecimento e acabam por abortar os projetos logo no seu nascedouro. Às vezes existe alguma boa vontade na tramitação dos projetos, eles são enviados para pareceristas externos ao grupo, mas como isto é muito surpreendente e muito diferente, os projetos acabam sendo rejeitados, muitas vezes ignorados ou sua tramitação é tão lenta que o grupo gerador do projeto acaba se desarticulando. A extensão deve ser trabalhada em cada nível da hierarquia universitária, como as atividades de pesquisa, estando cada nível pronto para receber e avaliar cada projeto com brevidade e competência.
Muitos problemas vividos atualmente nas Universidades, como consumo de drogas no interior do Campus, presença da polícia para segurança das pessoas que circulam nas dependências da instituição, destino correto do lixo gerado durante as atividades universitárias, restaurante universitário, atividades artísticas e esportivas etc., podem ser tratados de forma bastante produtiva através da extensão universitária e através deste processo pode ocorrer produção de conhecimento de primeira linha.
Os gestores da Universidade, muito intoxicados com a luta política nos seus diversos níveis, aparentemente não se deram conta disso, mas ainda não é tarde demais. Basta uma mudança de atitude, um sentar mais demorado e um acostumar de vistas diante da complexidade que se apresenta, para ver o óbvio: a extensão é a solução.
Para tanto, precisamos reduzir o isolamento dos departamentos e institutos, criar mais grupos de trabalho interdisciplinares, envolver os estudantes, criar mecanismos de publicação de trabalhos de extensão, direcionar recursos e executá-los sem rodeios. Precisamos levar o conhecimento da tramitação de documentos a todos os níveis universitários (aos estudantes, aos funcionários, aos professores e à comunidade), para que os processos corram sem atropelos e retornos, para que possamos buscar a redução de passos administrativos.

Precisamos criar uma continuidade entre os procedimentos e entre os setores, diminuindo a fragmentação da Universidade, sem o que a nossa comunidade tende ao brejo aos pedaços, sem esperança de vida.

Feira de Santana, abr 2012.

quinta-feira, 19 de abril de 2012

Programa de Extensão Restaurante Universitário: PERU




O restaurante universitário é um problema. Primeiro temos a necessidade de oferecer comida a custos reduzidos, pois a média dos estudantes universitários não é rica. Em segundo lugar, mas ao mesmo tempo o produto, oferecido deve ser de boa qualidade, pois o estudante precisa alimentar-se bem para enfrentar a sua formação universitária. Em terceiro, precisamos administrar o restaurante de forma que não faltem insumos e que os recursos humanos não fique insuficiente comprometendo o restaurante. Finalmente, em quarto, precisamos fiscalizar as atividades para manter a higiene em níveis aceitável para os padrões da ANVISA. Para atacar esse problema sugiro a implantação de um Programa de Extensão Restaurante Universitário (PERU). Este programa deveria ser coordenado pelo pessoal do curso de engenharia de alimentos. O PERU desenvolveria 4 projetos. O projeto 1 teria como objetivo produzir alimento com a qualidade necessária para um estudante médio alimentar-se com qualidade para preparar-ser melhor para os estudos. O projeto 2  deveria focar a produção tradicional de alimentos, chamando as cozinheiras dos arredores para ensinar e fixar suas receitas . O projeto 3 teria como objetivo a administração do restaurante, providenciando o fluxo contínuo de insumos e a quantidade necessária de recursos humanos; expoentes do próprio setor administrativo da UEFS poderiam coordenar este projeto. O projeto 4 fiscalizaria todo o processo: aspectos microbiológicos, infestação de animais etc., acho que colegas do departamento de biologia poderiam coordenar este projeto. Cada projeto do programa teriam 2 bolsas de extensão, os bolsistas de extensão, orientados pelos coordenadores dos projetos ou seus associados, ficariam com a responsabilidade de executar os projetos. A universidade entraria com os equipamentos necessários e com as bolsas de extensão, como também com os recursos necessários para o contrato terceirizados para limpeza (administrado pelo projeto 3) e para a culinária (projeto 1). O programa ofereceria relatório anual disponibilizado para toda a comunidade Universitária. O PERU seria gratuito aos estudantes de graduação e bolsistas IC ou ITI; o valor mínimo seria pago pela metade por estudantes de pós-graduação e teria o valor duplicado para professores, visitantes externos à UEFS, bolsistas DTI, pós-doutores etc. Claro que teríamos que fazer uma resolução específica para o PERU, liberando talvez mais bolsas de extensão... Bom, isso a Malena tira de letra...

Feira de Santana, Abr 2012.

As corretíssimas palavras de Cássio van den Berg sobre os incidentes na UEFS em Abril 2012

Transcrevo literalmente: 


"Dia 18/04/2012, alunos de pós-graduação pulam o muro da UEFS e correm para o LABIO para acudirem os equipamentos que não podem ficar sem manutenção por mais de 72h, e evitar que seus experimentos sejam perdidos, o que acarretaria grande perda de recursos alocados pela própria universidade, pelo CNPq, CAPES, FAPESB e outras agências de pesquisa.

No momento de sair são agredidos verbalmente e sofrem coação por parte dos outros estudantes. 

Toda escolha que é tomada tem dois lados: Se por um lado a administração ESCOLHE ficar inoperante por medo das consequências de tomar alguma ação, ela também ESCOLHE expor toda a comunidade científica à falta de segurança e condições de trabalho, ESCOLHE não zelar pelo patrimônio público que lhe foi confiado como gestor, e ESCOLHE deixar a universidade à merce de infrigir leis básicas de biossegurança e bioética. Tudo isso são escolhas tomadas por nossos gestores.

De fato cada vez que são cometidos atos que claramente são caso de polícia (como por exemplo o que aconteceu com o ônibus que foi queimado dentro da universidade, e como o que aconteceu dentro do nosso conselho departamental), e nenhuma medida é tomada pela ADMINISTRAÇÃO SUPERIOR, verificamos que a ACAO SEGUINTE é um pouco mais intensa, como a que observamos agora. 

Em um futuro próximo, podemos antecipar invasões de laboratórios, queima de prédios e ações similares, se o padrão de escalada da violência por parte deste tipo de pequeno grupo de alunos for mantido. 

Diante do que está ocorrendo, me preocupa seriamente a DETERIORAÇÃO das condições de trabalho para docência, pesquisa e pós-graduação dentro da UEFS, que vem claramente ocorrendo nos últimos três anos.

No momento temos uma situação que se configura como GRAVE, em que os equipamentos pertencentes ao CNPq, FAPESB e à própria universidade, todos patrimônio público, estão ameaçados pela falta de manutenção. Ou seja, a nossa instituição NAO TEM CONDIÇÕES de manter este tipo de equipamentos e realizar pesquisa científica que dependa de um mínimo de garantias para gerir equipamentos sofisticados para pesquisa, adquiridos nos projetos de pesquisa.

Em que ponto chegamos quando vejo meus alunos de pós-graduação pulando o muro da UEFS e se arriscando a agressão física por outros alunos para entrar no Campus no intuito de salvar a integridade de equipamentos que foram adquiridos em projeto de pesquisa, o quais a ADMINISTRAÇÃO SUPERIOR se comprometeu a zelar e manter dentro dos compromissos formalmente assinados e contrapartidas garantidas nos projetos de pesquisa? Será que algum membro da ADMINISTRAÇÃO SUPERIOR pularia o muro da universidade para garantir os compromissos por eles assumidos (nesta ou em gestões anteriores?)

Ao mesmo tempo, a universidade comete crime ambiental de maus tratos aos animais do biotério, por não garantir o acesso das pessoas responsáveis por tratar dos animais, e os animais ficam já por 4 dias sem alimento?

Detecto claramente as seguintes características na administração atual:

a) INABILIDADE DE RESPONDER ÀS DEMANDAS E DESAFIOS POLÍTICOS A QUE TEM SIDO SUBMETIDA.
b) Incapacidade de garantir um ambiente seguro para os docentes, funcionários e servidores, no seu local de trabalho.
c) Incapacidade de zelar pelo patrimônio público e pelo patrimônio alocado por agências de fomento nas dependências da universidade.
d) Incapacidade de garantir o cumprimento das questões básicas para a pesquisa com animais (e violação dos compromissos de ética em pesquisa animal).

Até quando veremos tanta inoperância? Até entendo que muito cuidado e atenção deve ser tomado em lidar com a situação. Ao mesmo tempo há uma cultura de não tomar nenhum tipo de providência toda vez que observamos atitudes radicais pelos alunos.

Será que isso não é medo da repercussão, para garantir votos dos alunos em eleições para reitor. Isso tem nome, POPULISMO, e os políticos do nosso país sempre foram especialistas nisso. Até onde prosseguiremos com tanta omissão e negligência?

Cassio van den Berg
Eleitor da atual administração e grandemente decepcionado por sua atuação medíocre neste caso e em outros anteriores."

segunda-feira, 16 de abril de 2012

Truculência estudantil


Neste momento que escrevo acabo de retornar do Portal da Universidade Estadual de Feira de Santana novamente impedido para manifestações. Considero este costume pernicioso e contrário à democracia, que exige igualdade de direitos para todos. Hoje fomos impedidos inclusive de acessar a pé o Campus da Universidade, nos outros movimentos semelhantes impediam apenas o carro de entrar. Fomos impedidos por arruaceiros mascarados exigindo direitos legítimos maculados por atos de violência.
Ao impedir o acesso ao Campus os estudantes agridem um dos direitos mais básicos do cidadão num estado democrático que o de ir–e-vir. Mas esta geração de estudantes já tem um histórico de truculências que apenas denigrem o movimento estudantil. Foi truculência o impedimento das eleições legítimas do Departamento de Ciências Biológicas, ato que contou com a conivência das autoridades constituídas da Universidade. Foram truculências criminosas os incêndios de ônibus, seja no Campus ou em qualquer outro lugar do país, ato digno de traficantes e terroristas.
Vivemos num estado direito regido por Constituição promulgada, com governos executivos eleitos de forma livre e amplamente legitimados. A reitoria da Universidade não só é legítima como foi eleita com amplo apoio da categoria estudantil. Neste ambiente, não cabe os atos de violência perpetrados por mascarados covardes.
Vivi o movimento estudantil no crepúsculo dos anos da ditadura e tenho uma simpatia natural às atividades políticas dos estudantes universitários, que devem lutar pelos seus direitos, mas o que estamos assistindo  não é movimento político legítimo, não é defesa de ideais. Essas coisas não são defendidas com máscaras.
Diante destes fatos, considero difícil defender o voto universal em todos os níveis da Universidade. Não acredito mais na maturidade do movimento estudantil desta geração para interferir de forma positiva e significativa nos destinos da Universidade.

Feira de Santana, 16 Abril 2012, 8:40hs.

quinta-feira, 12 de abril de 2012

Onze de setembro




Estou aqui sendo inundado por informações e recordações sobre os atentados contra o Centro de Comércio Mundial de Nova Iorque, que vitimou mais de três milhares de pessoas e mudou os caminhos da história.

Devo responder à pergunta feita pelo repórter: “O que você estava fazendo em onze de setembro de 2001?”

O pior é que eu me lembro. Eu estava muito concentrado, pois apresentaria para os meus colegas, pela primeira vez, a minha tese de doutorado. A universidade de São Paulo, e as pós-graduações em geral, exigem uma apresentação do doutorando, chamada “qualificação”, quando ele mostra domínio dos conceitos que ele utilizará no seu trabalho de doutoramento. É um momento de tensão, onde uma reprovação implica em forte desmerecimento e uma das poucas oportunidades em que o doutorando é realmente avaliado.

Preparei minhas transparências e melhorei uma apresentação que tinha feito na Inglaterra e enfrentei meus colegas numa prévia do que seria minha qualificação. A apresentação aconteceu numa sala do PAT 1, no  primeiro módulo do Campus da Universidade Estadual de Feira de Santana.  Foi um desastre. Minha orientadora, prof. Ana Maria Giulietti, adormeceu durante minha apresentação, meus colegas criticaram a ordem, a forma, os conceitos, disseram-me que daquela forma seria reprovado. Fiquei desanimado.

Saí da sala  da apresentação  e subi a passarela que vai do pavilhão à cantina, carregando o retroprojetor, minhas transparências, minha vida aos cacos, voando aos pedaços, inúteis, como os papéis que eu via voando de um prédio que desmoronava na televisão da cantina, todos estavam paralisados assistindo o noticiário.

- Que houve? –Perguntei para uma aluna que estava à minha frente...
- É as torres gêmeas de Nova Iorque...

Olhei para Televisão tentando entender. Vanilda tinha me falado, logo que cheguei, que os Estados Unidos tinham sido atacados. Mas eu estava tão concentrado na minha apresentação que não dei a devida atenção. Então vi minhas transparências sendo levadas pelo vento e vi os papeis sendo levados pela nuvem de destroços das Torres Gêmeas e me ocorreu que aquela nuvem estava cheia de fragmentos de corpos triturados e incinerados e escapou de minha boca:

- São americanos vaporizados...

A menina riu. Achou que tinha feito um gracejo. Numa daquelas confusões que acontecem na minha vida, em que eu falo coisas e de repente tudo fica interpretado de uma forma diversa do que penso, mesmo que o que pense seja até pior...

Os estadunidenses  por muitos anos invadiram, assassinaram, derrubaram governos legítimos, violentaram leis nacionais e naquele momento viviam o ápice de poder no mundo. Um poder só comparável ao Império Romano antigo, no qual eles gostam tanto de se espelhar.

Os estadunidenses foram a única nação do mundo que se atreveu a lançar um ataque nuclear contra outra nação. Um ato que para sempre colocará nomes como Henry Trumann como um dos maiores genocidas da história. Os estadunidenses agiram de forma insidiosa e foram determinantes na queda do Governo Allende do Chile. Os Estados Unidos estão no centro da deflagração e da manutenção do terrível regime militar brasileiro. A lista é longa: Vietnam, Granada, Filipinas, Palestina...

Hoje, uma década depois dos atentados, depois da invasão do Afeganistão, depois da invasão do Iraque, depois da queda e execução de Sadam Hussein, depois do assassinato de Osama Bin Laden. Em plena época da primavera árabe, com a queda de Mubarack do Egito, com Kadafi já fora do poder na Líbia, depois da profunda crise econômica que os Estados Unidos levaram o mundo... depois de tudo isso, reluto em chamar os atentados de “terroristas”.

Eu acredito que os ataques foram legítimos ataques de guerra. Uma guerra que foi declarada, a organização Al Qaeda tinham formalmente declarado guerra aos Estados Unidos. O próprio Centro de Comércio Mundial tinha sido alvo de ataques. A nação só não temia o ataque por que, diante da prosperidade do período Bill Clinton, diante do desmoronamento da União Soviética, parecia que os Estados Unidos viviam num Olimpo inatingível. O estadunidense médio não precisava se preocupar com a fome no chifre da áfrica, não precisava se preocupar com a miséria do mundo, que fornece diamantes para seus monumentos fúteis, que fornece petróleo para aquecer seus lares, miséria terrível que são submetidos milhares e milhares para manter um único país próspero, exorbitantemente próspero.

Finalmente houve um ataque. A águia reagiu com fúria, destruindo e matando,  matando estrangeiros às centenas de milhares, mas também sacrificando seus próprios filhos. Lembro-me de um dia, anos e anos depois dos ataques, que o número de soldados estadunidenses mortos no Iraque já superava os mortos no Onze de Setembro. O que eles estavam fazendo no Iraque, não era a justiça internacional, uma vez que Sadam era aliado estadunidense, seu fabuloso exército fora montado, gatilho por gatilho, pelos estadunidenses.  Da mesma forma que os Talibãs afegãos, receberam armas, treinamento  e dinheiro estadunidense, lembro-me que até o Rambo os ajudou...  O que operava no Iraque era a sede de petróleo, a visão de lucros exorbitantes,  além da sede de vingança.

Eis o ataque. A guerra. A crise. Obama assassinou o Osama, como Osama assassinaria o Obama se tivesse oportunidade. Por que será que Osama não foi conduzido para justiça? Mesmo aquela “justiça” de Guantânamo, manchada de tortura, quando os estadunidenses vestiram os uniformes negros dos nazi-facistas que eles diziam-se contrários? Por que? Porque Osama sabia demais, óbvio. Talvez, se Osama pudesse falar  e pudesse ser ouvido, teria até mãos estadunidenses diretamente envolvidas no atentado do Onze de Setembro: pode-se dizer que seria um suicídio jurídico!

Um terremoto e um tsunami ajudaram a China a superar o Japão como segunda economia mundial. Analistas de economia estimam que antes de 2020, os chineses superarão os estadunidenses como economia mundial.  Até o Brasil andou falando mais alto nos últimos anos. Sempre serão importantes no mundo, mas não estão sós.

As pessoas que trabalhavam no Centro de Comércio Mundial agiam no centro do poder  estadunidense,  existiam ali até escritórios do serviço de inteligência. As pessoas que estavam ali não eram inocentes. Eram os mantenedores dos mecanismos de poder dos Estados Unidos no mundo. Estavam longe de ser inocentes.

Obama diz que os Estados Unidos devem levar uma mensagem positiva aos corações das pessoas, contudo, o mensageiro, já está com as mãos sujas de sangue.

Salvador, 11 set 2011.