sábado, 30 de novembro de 2019

Transparências



Este foi o meu segundo livro de poemas, publicado 2014, trazendo versos elaborados na sua maioria em 2009. A capa vem originalmente de uma foto de Leilton Damascena, mostrando nossas sobras no solo esturricado da Caatinga.

Ele caminhou nos sítios da infância,
no baldio, onde o chumbo era derretido
para fazer os goleiros do botão;
no cruzamento, onde as bicicletas
chocaram-se, porque não tinham freio;
no campinho de futebol da cento e oito,
onde o gol não logrou ser convertido.

Ele caminhou de novo, reviu tudo.
A trajetória perdida da bola,
o prateado borbulhante do chumbo
na forma de fósforos Guarani,
a velocidade irresponsável.

Ele voltou. Ele retornou. Ele reveio.
Tanto voltou que a criança o percebeu.
Ergueu-se doída, levou a bicicleta
amarela, amassada, desenfreada.


Olhando de soslaio o vulto futuro,
O menino percebeu o homem grisalho,
avançado na idade e sorriu-lhe
mostrando-lhe o goleiro de chumbo.


O menino percebeu e veio até ele.
Veio em busca do carinho, mesmo sendo
seu próprio carinho. Amam-se o menino
e o velho. Amam-se sinceramente,
sensualmente mesclados nos seus corpos
nos recônditos lugares da infância.

(p. 67)


quinta-feira, 28 de novembro de 2019

"Memorial de Aires" de Machado de Assis



            O último romance de Machado de Assis discorre sobre uma história banal. A jovem viúva Fidélia, encontra um novo amor em Tristão. Eles se casam e migram para Lisboa, onde Tristão é político prestigiado.
            A dramaticidade é construída a partir do Casal Aguiar, o marido e a esposa: D. Carmo. Trata-se de um casal que não teve filhos. O desejo da paternidade e de oferecer o amor que tinham para dar, fá-los, primeiro, adotando um cão, que acaba por morrer. Depois recebem como afilhado o filho de um casal de amigos: Tristão. Contudo o casal de amigos viajam para Portugal e desaparecem com a criança. Finalmente adotam Fidélia, jovem viúva abandonada pela família.
            Muitos anos depois de sua partida Tristão volta já homem feito e o casal Aguiar vive um ano em celestial alegria com os dois filhos postiços, que apaixonam-se e casam-se. Mas a alegria transforma-se em profunda melancolia, quando o casal viaja até Lisboa e lá Tristão assume a carreira política, deixando o casal de velhos no Brasil, tristes e solitários.
            A história seria banal se não fosse a forma como o autor a contou. Machado de Assis cria um personagem, o Conselheiro Aires, um diplomata aposentado, que há um ano retornou para o Brasil e agora dedica-se a fazer anotações sobre o que se passa com seus conhecidos.
            O romance se desenvolve entre 9 de janeiro de 1888 e uma data indeterminada depois de agosto de 1889. Serve-se, como pano de fundo, o processo da abolição da escravatura.
            O romance inicia-se com a visita que Aires e sua irmã Rita fazem aos túmulos dos parentes. Ali encontram a jovem viúva Fidélia, que vai render homenagem ao marido. Nesta ocasião Rita aposta com Aires que Fidélia não deixará sua viuvez, enquanto que Aires afirma que a deixará assim que encontrar um bom partido.
            Aires, como o próprio autor diz na "advertência" é uma personagem que Machado de Assis já havia usado no romance "Esaú e Jacó", onde também é referido como uma pessoa que escreve um Memorial.
            Inicialmente este bom partido bem que poderia ser o próprio Aires e, sem declarar de forma aberta esta intenção, ele começa a frequentar a casa dos Aguiar. O marido, é um banqueiro e D. Carmo, a esposa é uma senhora prendada e melancólica, que vive para dar amor à sua filha postiça e para sentir saudades do seu filho postiço Tristão.
            Aires-Machado, constrói as personagens com precisão. Fidélia casou-se sem a permissão paterna, o Barão de Santa Pia, porém logo depois de casada o marido veio a falecer. O pai não lhe perdoou a desobediência e a manteve afastada. A solidão da viúva encontrou-se com as saudades filiais de D. Carmo e seu marido. Sendo uma pessoa encantadora e sendo encantadores os velhos, adotaram-se mutuamente como pais e filha.
            O Barão de Santa Pia fornece o mote para estender o pano de fundo. Latifundiário da Paraíba do Sul, vê com preocupação o movimento pela abolição. Percebendo tudo inevitável, o Barão liberta todos os seus escravos antes que a abolição se consuma. Os escravos libertos não têm para onde ir e ficam na fazenda trabalhando para o Barão. Este adoece e morre, sem voltar a falar com a filha, que herda a propriedade e o gerenciamento dos escravos libertos. Antes de casar-se Fidélia dispõe-se a fender a propriedade, mas Tristão a convence de doar a propriedade aos libertos, para que eles pudessem dar um destino às suas próprias vidas.
            Fidélia teve outros pretendentes, como o Osório, que foi miseravelmente rejeitado, dando como justificativa a necessidade de dedicar-se à viuvez, dando a entender que não era ainda a pessoa ideal.
            De repente chega-se notícia de Tristão e logo este vem ao Brasil para visitar os padrinhos, que o recebem carinhosamente.
            Depois de alguns meses Tristão e Fidélia estão enamorados.
            A história toda é contada aos fragmentos, através das visitas quase semanais que Aires faz aos Aguiar, ou através de informações que Rita lhe trás ou através de notícias de terceiros como o desembargador Campos, tio de Fidélia e conhecido de Aires, como também através de terceiros como D. Cesária, mulher que gosta de falar mal dos outros, sem mal e de todos.
            Aires é um dissimulado, característica associada a sua antiga profissão de diplomata. Ele pensa antes de falar, fala sempre com discrição e jamais emite uma opinião que possa ser mal interpretada ou causar alguma polêmica. Mas não passa de um desocupado que vive a ter conta das outras pessoas para fugir de sua vida vazia.
            Aires-Machado nos faz ver que todas as relações são, conforme na diplomacia, regidas por meias palavras e dissimulações. As relações entre as pessoas não deixam de ser verdadeiras e sinceras, mas nunca tudo é dito completamente, nunca a verdade é dada de forma límpida.
            A verdade é que a felicidade de Aguiar e sua esposa é insustentável. A verdade é que o fim reservado para as suas vidas é a solidão, que eles têm apenas um ao outro, a um certo momento, nem isso. Os Aguiar não querem ver esta realidade que avança inexorável contra eles, eles lutam contra o abandono que por qualquer caminho que a história se desenrole parece inevitável: a solidão e abandono do casal.
            Aires participa ativamente de todo o processo, sua participação, contudo, não é determinante para o desenrolar, ele é apenas um observador e por ser totalmente externo à história que narra, de vez em quando é usado pelas outras personagens como confidente. Como as pessoas lhe confiam segredos, Aires tem um conhecimento privilegiado sobre todos os outros curiosos que rondam a vida dos Aguiar (D. Cesária, Rita e até mesmo o tio de Fidélia, o desembargador Campos.)
            As personagens são todas bem construídas e individualizadas. Os principais: Aires, os Aguiar, Tristão e Fidélia são os mais bem trabalhados. Mas as personagens secundárias também têm uma personalidade definida, como o Barão de Santa-Pia, que apesar de não ser exaustivamente descrito, tem uma individualidade palpável. Também têm personalidade o desembargador Campos, Rita, D. Cesária e até o marido desta, assim como o pretendente infeliz o Osório. Existem personagens vazios como Carlos, filho do desembargador que aparece apenas de forma decorativa, ou o mordomo José que tem alguma construção, mas também é apenas decorativo.
            O livro trata sobre a solidão da velhice, fala sobre como as pessoas lutam contra esta solidão e como ela é inevitável. Aires-Machado compara a velhice à morte, de várias formas e em vários momentos e usa essa comparação para libertar os jovens da culpa que sentem ao abandonar os velhos. Isso vai contra o senso comum e não é aceito pelo desembargador Campos, quando isso lhe é afirmado.
            Interessante notar, aproveito aqui a nota de Décio Luís, encontrada na edição do romance que li (Coleção Páginas Amarelas, vol. 2, editora Expressão e Cultura, 2001) onde ele afirma que a cena final, em que Aires encontra o casal Aguiar sós e silenciosamente sentados um diante do outro, como a imagem do casal Machado e Carolina que "tinham saudades de si mesmos", ou seja, Não só Aires é uma manifestação de Machado de Assis, mas também o próprio Aguiar. \
            Em certo trecho do romance, Aires-Machado diz estar em outro mundo, pois é necessária a distância no mar para melhor ver as pessoas na praia. Com este romance Machado de Assis tenta afastar-se de si mesmo, para ver-se imerso na sociedade e na família, como num  auto-retrato.


terça-feira, 26 de novembro de 2019

"I diari della luce" de Paola Buccheri

Resultado de imagem para i diario della luce paola bucheri






Este livro de Paola Buccheri vem de uma longa experiência da autora  fazendo textos em um blog (Blu Cobalto), do qual ela extraiu aqueles textos que falam de sua vocação maior: o amor, aquele que "si moltiplica per divisione" (p.8)
o amor de Paola é o amor ensinado  por Jesus..." la potenza di Gesù in croce ė estata di morire d'amore per noi" (p.27).... é o décimo primeiro mandamento: amar ao próximo como a si mesmo.... Pode-se dizer que o livro é a busca diária por este amor e, mais ainda, o esforço diário para a sua doação ao próximo, ao que Paola dedicou-se por anos no trabalho da catequização de jovens para cristianismo católico, na educação de seus filhos, no cuidado com seus familiares diretos, arrisco dizer até dispensando um precioso carinho  a mim.
Paola é uma querida amiga, uma paixão cozida na distância e na saudade que acabou por transformar-se numa amizade afetuosa e sincera de ambas as partes.
Justo por conhecer suas angustias, suas vitórias e derrotas nesse longo processo, que sinto o livro filtrado ao extremo. Sinto falta dessas omissões. senti falta da sua passagem pelo Brasil, que teve apenas a referência ao Cristo Redentor carioca "Aquele abraço! " (p. 126). Mas entendo que há necessidade de um mínimo de objetividade  diante de um tema tão subjetivo.
Paola é uma pessoa capaz de abrir seu coração, pelo menos a mim, sem falsos pudores. Eu vejo um coração marcado pela busca do amor, mas não vejo um coração cansado ou desanimado, ele está vivo, vermelho, pulsante. Eu o sinto capaz de mais 50 anos de busca e doação.
Para aqueles que não a conhecem, o livro pode até passar a ideia de uma mulher fisicamente forte, até mesmo gorda, uma matrona italiana, de carnes fartas, bochechas vermelhas e voz sonora. Mas Paola não é assim. Magrinha, pequena, palida . Ela fala no livro dessa falta de sangue que a acompanha há anos: " la mia carenza di sangue, il mio pallore" (p. 60). Diante dela, é difícil crer que ela foi capaz de gerar dois filhos: a cantora Margarida assina a capa, acredito que a mãe numa postura que eu reconheço; e Francisco,  que deixou a ilustração de uma arvore com folhas rômbicas  na borda de uma falésia (p.163)... também reconheço Paola nesssa arvore vigorosa.
Mas Paola não é uma beata medieval, ela é uma mulher católica que vive essa transição do seculo XX para o XXI, ela enfrenta as grosserias do trânsito, ela conversa com as séries de tv. Disso tudo ela extrai combustível para sua busca/doação: amor
Paola é um mineiro que busca a rara gema engastada na rocha sem valor da indiferença, na poeira do desamor, nas lamas das tristezas. Se assim for, minha Paola é a mais rica beata  do século XXI, por que ela consegue  achar amor até em naftalínicos botânicos metidos a cientistas cartesianos!!!
Se às vezes, Paola, esse amor que você encontra não lhe deixe tāo animada, até um pouco desanimada,  é por que essas matrizes onde o encontra , que são valorizadas pelo seu toque, pela sua atenção, não produzem gemas que sequer chegam perto do brilho que é esse diamante: você!


Buccheri, Paola.I diari della luce. Boscoreale (NA), IT: Il quaderno edizioni, 2019

lido em ago 2019.

Fuga Vertiginosa






"Fuga Vertiginosa" foi meu segundo livro de poemas. Contendo poemas elaborados entre 2008 e 2009. A capa é uma aquarela de Claudia Cunha, inspirada numa paisagem de Caatinga.

Verde e Azul

Prólogo


No início não tinha nada
suas almas flanavam sobre
as águas, os céus não tinham
estrelas, nenhuma luz
lumiava as perdidas faces
que não conheciam calor
da aurora ou perfume úmido
das claras manhãs gorjeadas
com pássaros, luz, frescor,
trazendo vontade do vácuo
preencher, do vazio completar,
finar solidão infinita


Diálogo


E foi numa aurora quando
vi a luz dos dois olhos
fitando a longínqua flor,
beleza indizível, doce,
o braço cruzado, mão
direita tocando o braço
esquerdo, carícia irmã,
possível desenho em lábio
sem jaça de um sorriso.

A flor do infinito que
minha visão extasiou
de tal formosura era
que tudo ao redor deixou
de ser e ficou tão frio,
tão frio, que meu braço destro
cruzou-se por sobre o braço
esquerdo em carícia irmã,
que gerou um élan, saudade
do toque, carinhos idos.


Do nada surgi, da escura
matéria, primeiro vieram
meus braços, que te abraçaram,
primeira função dos braços,
que até ali nada faziam
além do que já era devido:
matar e levar à boca,
lutar e dizer adeus.
Por sobre teus braços, pele
macia, qual serpente, píton,
captando com língua odores
tão doces, de flor distante,
carinho roubado à irmã.

Do escuro veio meu lábio,
roçando de leve o ouvido,
desceu, já em calor, à nuca,
perfume inalado tênue,
suave amoroso hálito.

A pele do colo intuiu
sorriso só por mover
o lábio, que veio da fina
matéria escura, que
deu cócegas, que aqueceu,
cresceu a vontade de
saber o conceito do que
em mim de repente criou.

Agora com todo corpo
do breu renascido, exposto,
corpos unidos, quentes,
ternura vazando em fluxo,
mundo criando-se
inteiro, as flores todas,
as luzes, ar, céu, manhã,
café da manhã, sabores,
os pássaros todos, vôos,
élan de rebroto novo.


Andavas nas nuvens, via
tua imagem oculta entre
os flocos gelados nas
alturas, o céu  tão azul,
tão azul, eras tu azul todo,
celeste que abrasa, mas
o abraço é frio, pois mesmo
azul, mais distante estavas
do que no meu sonho, brumas,
um céu salpicado de nuvens.

Oculto nas nuvens, via
teu andar displicente, via
tuas preces aos céus lançadas
e eu me apoderava delas
e dos teus sonhares todos
e dos teus desejos todos,
comia-os, levando-os co´as
duas mãos à mi´a boca aberta
enquanto tritura sonhos,
desejos e preces, dentes!
Pequenos pedaços deles
caíam no dossel imenso
da mata contínua até
a curva da Terra, a cada
pedaço uma flor criava,
teu espírito era a vida
da mata inteira verde,
tapete felpudo em que
meus dedos corriam por entre
papilas floridas tuas.
Floresta e Céu unidos,
azul-esverdeado, mar
a Terra nua azul com suas
cobertas em verde casto,
água-marinha, esmeraldas.

Uma onda gelada contra
Meu corpo rochedo veio
Rocamboleando mi´a vida,
segredos mostrados públicos
jogada na areia da praia
sequei ao sal, ao sol, sozinha.
Não estavas, covarde, lá onde
meus restos dispersos eram
sem pena apontados, ridos...
Correste covardemente...

Corri o mais que pude, mas
não saí do lugar, soldado
na linha de frente, que
levanta o facão, que grita
e mostra os cerrados dentes,
mantém o inimigo longe.
Corri tanto que não movi
meu corpo, enfrentei Dragão,
perdi-me numa flor de lágrimas,
que envolveram minha vida,
deixei minha linda flor
perdida no mundo verde,
corri o mais veloz, mas não
saí do teu lado, mas
corri tanto e tanto, que,
estando assim mesmo ao lado,
saudades eu sinto e mesmo
depois de correr bastante...


Epílogo em tom de ameaça

Tome essas palavras que
estão na garrafa que no
verde-azulado mar
azul-esverdeado foi
jogada, arremessada e
reveio na maré alta, foi
subindo os riachos, cachoeiras
escalou, nas tuas mãos ela
irá enfim chegar, eu sei,
à fresta do seu olhar
irás decifrar, eu sei,
irás procurar, estou
ali, bem atrás da nuvem,
estás, eu sei, aflita, mas
eu estou bem ali, raflésia
enorme, tão perto estou
que vou te abraçar, vou sim!
Vou te calar em carinho,
vou sim! Sufocar as dores,
vou sim! Calar, sufocar...