domingo, 27 de julho de 2014

Aspectos do racismo


A exclusão de um semelhante baseada puramente em critérios raciais é uma característica  da sociedade brasileira. O esforço pela inclusão dos afrodescendentes na sociedade, de forma que todos tenham acesso aos benefícios do desenvolvimento econômico observado no país nos últimos anos, esbarra no comportamento racista dentro das comunidades negras. Novamente, recai sobre as escolas a incumbência de lutar contra a discriminação.
O racismo de negros contra negros vem já da época da escravidão em que os próprios negros libertos tinham escravos. Isso, a desvalorização social do negro,  se reflete no presente e pode ser observado em comportamentos não percebidos pelos atores sociais contemporâneos.
Um aspecto interessante é a dificuldade que evangélicas negras têm para encontrar parceiros. A evangélica devota deseja um casamento com outro cristão evangélico e que este casamento seja um exemplo de fidelidade e  persistência nos votos matrimoniais. Contudo há uma grande percentagem de evangélicas negras que não conseguem se casar ou encontrar parceiros negros, pois estes desejam ainda casar-se com mulheres brancas. Na verdade, o casamento com mulheres brancas ainda está relacionado à ascensão social do negro levando a uma rejeição das mulheres negras.
As características das raças afrodescendentes continuam fortemente rejeitadas pelos próprios negros.  Um exemplo disso é a rejeição aos cabelos crespos. Entre os homens, aparentemente, esta rejeição reduziu-se significativamente, já pouco se observa negros adultos de cabelos alisados. Emblemático neste sentido foi a crítica feita por Malcon X a esta prática nos Estados Unidos, levando virtualmente à sua extinção, retornando agora por apenas como formas diferentes de fazer penteados para ocasiões festivas ou esportivas, mas não com o objetivo de fazer o cabelo parecer liso de forma sistemática e como um desejo de esconder o verdadeiro aspecto de seus cabelos e não apenas como um enfeite. Entre as mulheres isso não está acontecendo. Negras jovens ainda submetem-se a tratamentos caros, expondo-se a produtos químicos obscuramente inócuos, para manter os cabelos lisos e sedosos. Entre as reclamações de mulheres negras deprimidas aparece a necessidade de alisar os cabelos, ou colocar apliques para simular cabelos lisos, como um dos fatores que determinam seus estados psicológicos.
Este racismo é ensinado nas escolas de forma não totalmente inocente. Apenas recentemente os livros didáticos passaram a ser policiados para a inclusão de figuras humanas negras entre as brancas. Porém tal prática ainda não foi internalizada pelos promotores do ensino, professores e gestores da escola, na sua maioria brancos ou “quase brancos”,  aproveitando a irônica canção de Caetano Veloso e Gilberto Gil. Na ornamentação das escolas e das salas de aula, mesmo em instituições em que a maioria da clientela é negra quase que na sua integridade, as representações de negros são raras e muitas vezes têm seus atributos modificados, como o cabelo alisado. Esta prática expõe crianças negras à rejeição da raça e dos atributos negros, levando de forma subliminar ao racismo de negros contra negros.

Feira de Santana/Salvador, jul 2014