A exclusão de um semelhante baseada puramente em critérios
raciais é uma característica da
sociedade brasileira. O esforço pela inclusão dos afrodescendentes na
sociedade, de forma que todos tenham acesso aos benefícios do desenvolvimento
econômico observado no país nos últimos anos, esbarra no comportamento racista
dentro das comunidades negras. Novamente, recai sobre as escolas a incumbência
de lutar contra a discriminação.
O racismo de negros contra negros vem já da época da
escravidão em que os próprios negros libertos tinham escravos. Isso, a
desvalorização social do negro, se
reflete no presente e pode ser observado em comportamentos não percebidos pelos
atores sociais contemporâneos.
Um aspecto interessante é a dificuldade que evangélicas
negras têm para encontrar parceiros. A evangélica devota deseja um casamento
com outro cristão evangélico e que este casamento seja um exemplo de fidelidade
e persistência nos votos matrimoniais.
Contudo há uma grande percentagem de evangélicas negras que não conseguem se
casar ou encontrar parceiros negros, pois estes desejam ainda casar-se com
mulheres brancas. Na verdade, o casamento com mulheres brancas ainda está
relacionado à ascensão social do negro levando a uma rejeição das mulheres
negras.
As características das raças afrodescendentes continuam
fortemente rejeitadas pelos próprios negros.
Um exemplo disso é a rejeição aos cabelos crespos. Entre os homens,
aparentemente, esta rejeição reduziu-se significativamente, já pouco se observa
negros adultos de cabelos alisados. Emblemático neste sentido foi a crítica
feita por Malcon X a esta prática nos Estados Unidos, levando virtualmente à
sua extinção, retornando agora por apenas como formas diferentes de fazer
penteados para ocasiões festivas ou esportivas, mas não com o objetivo de fazer
o cabelo parecer liso de forma sistemática e como um desejo de esconder o
verdadeiro aspecto de seus cabelos e não apenas como um enfeite. Entre as
mulheres isso não está acontecendo. Negras jovens ainda submetem-se a
tratamentos caros, expondo-se a produtos químicos obscuramente inócuos, para
manter os cabelos lisos e sedosos. Entre as reclamações de mulheres negras
deprimidas aparece a necessidade de alisar os cabelos, ou colocar apliques para
simular cabelos lisos, como um dos fatores que determinam seus estados
psicológicos.
Este racismo é ensinado nas escolas de forma não totalmente
inocente. Apenas recentemente os livros didáticos passaram a ser policiados
para a inclusão de figuras humanas negras entre as brancas. Porém tal prática
ainda não foi internalizada pelos promotores do ensino, professores e gestores
da escola, na sua maioria brancos ou “quase brancos”, aproveitando a irônica canção de Caetano
Veloso e Gilberto Gil. Na ornamentação das escolas e das salas de aula, mesmo
em instituições em que a maioria da clientela é negra quase que na sua
integridade, as representações de negros são raras e muitas vezes têm seus
atributos modificados, como o cabelo alisado. Esta prática expõe crianças
negras à rejeição da raça e dos atributos negros, levando de forma subliminar
ao racismo de negros contra negros.
Feira de Santana/Salvador,
jul 2014