quarta-feira, 2 de novembro de 2011

os "critérios" do Qualis CAPES

vejam a carta elaborada por prof. Ana Maria Giulietti Harley, onde a pesquisadora, de forma muito precisa, mostra que a atribuição da classe para as revistas no Qualis não é tão objetiva como o esperado.



"Salvador, 3 de outubro de 2011

Ilmo. Sr. Prof. Dr Luis Fernando P. Gusmão
MD Coordenador do Programa de Pós-Graduação em Botânica
Universidade Estadual de Feira de Santana

Prezado Coordenador,

Pela presente, no momento em que foi pedido aos professores do PPGBot para que se posicionassem em relação ao pedido de abertura de vagas para 2012, de acordo com os critérios da Área de Biodiversidade, venho solicitar a esse Colegiado que analise detalhadamente a proposta que foi apresentada e suas consequências para o nosso Programa e a Área de Botânica. As razões que apresento a seguir podem, então, servir para uma reflexão.

Desde o início das avaliações da CAPES, os programas de Botânica foram incluídos, juntamente com Zoologia e Oceanografia Biológica, na Área de Ciências Biológicas I, junto com os programas de Genética e Biologia Geral. Durante esses anos várias discussões foram encaminhadas no sentido de avaliar melhor o perfil da Área de Ciências Biológicas I, cuminando com o documento da Área em 2009, o qual, considerando o grande número de programas (110) e especialmente sua heterogeneidade, propôs dois Qualis distintos. Nesse documento, é mostrado claramente que existem dois perfis nessa Área, um contemplando predominantemente estudos taxonômicos e cladísticos e outro, principalmente estudos experimentais. Entretanto, existe uma nítida estratificação em ambos, e os programas com melhor classificação correspondem àqueles com os padrões internacionais mais elevados em suas áreas.

Assim, a Área de Ciências Biológicas I resolveu aplicar duas Medianas, associando as revistas da Área e os Índices de Impacto, sendo propostos dois parâmetros abrangendo as duas Câmaras: 1. Genética e Biologia Geral, com Mediana de 1,63 e, 2. Botânica, Zoologia e Oceanografia Biológica (BZO), com Mediana de 0,61. Por esses cálculos, as revistas de BZO, com índice de impacto igual ou maior que 2,1 seriam classificadas como A1, sempre respeitando a distribuição adequada dos periódicos.

No caso específico da Botânica, revistas como Annals of Botany (índice de impacto = 3,388), American Journal of Botany (3,02), Environmental and Experimental Botany (2,699), The Botanical Review (2,657), Plant Biology (2,409), Taxon (2,364), International Journal of Plant Science (2,364), Biotropica (2,169), Biological Journal of Linnean Society (2,166) e Biodiversity and Conservation (2,146) seriam enquadradas como A1. Da mesma maneira, Review of Paleobotany and Palinology (1,985), Botanical Journal of Linnean Society (1,931), Systematic Botany (1,897), Annals of the Missouri Botanical Garden (1,800), Australian Journal of Botany (1,681), Flora (1,657), Biologia Plantaram (1,582) e Plant Systematic and Evolution (1,369) seriam enquadradas como A2. Por outro lado, Economic Botany (1,260) seria B1. Por incluir as melhores revistas da Área, contemplando também revistas únicas em suas subáreas, como Review of Paleobotany and Palinology, para Palinologia e Paleobotânica, e Economic Botany, para a Botânica Econômica, esse enquadramento pode ser considerado justo para a Área de Botânica.

Nos últimos anos, em parte direcionados pela utilização do índice de impacto pela CAPES para ranquear os Qualis, os programas de Botânica, Zoologia e Oceanografia Biológica passaram a investir mais no formato de seus trabalhos e começaram a publicar nas melhores revistas internacionais de suas áreas. Essa estratégia possibilitou que alguns programas de Botânica alcançassem pela primeira vez os níveis 5 e 6. Na Botânica, o Catálogo de Plantas e Fungos do Brasil, publicado em 2010 e que utilizou mais de 400 especialistas (cerca de 80% do Brasil), é um marco importante dessa nova era. Ele foi uma das poucas Metas cumpridas pelo Brasil, dentre aquelas assumidas na Convenção da Diversidade Biológica para 2010. Devido ao grande número de trabalhos publicados recentemente em plantas e fungos do Brasil, o Catálogo já está sendo atualizado online e está sendo estendido para uma Lista Vermelha das espécies ameaçadas de extinção do país.

A criação da Área de Biodiversidade foi a realização de uma aspiração para todos que estão vinculados à Botânica, Zoologia e Ocenografia Biológica e, nesse sentido, várias gestões foram feitas. A satisfação é ainda maior quando se analisa a justificativa para a criação da nova área, onde está apresentado que o Brasil detém a maior biodiversidade do planeta e, portanto, os estudos que lidam com essa biodiversidade devem ser contemplados e valorizados. Também está colocado lá, que esses estudos devem contemplar todas as abordagens associadas a essa biodiversidade, que devem permitir o aprimoramento de seu conhecimento detalhado, sua conservação e seu uso sustentado.

Também para nós da Botânica, a criação da nova área de Biodiversidade demonstrou o reconhecimento do governo brasileiro e especialmente da CAPES, da importância dos estudos desenvolvidos no país associados à Biodiversidade. Estariam contempladas nesse escopo, pesquisas com a flora e fauna do país, dos Estados, dos biomas e dos ecossistemas, a descrição de novas espécies, estudos de detecção de espécies raras ou ameaçadas de extinção, visando sua conservação, e estudos populacionais e ecológicos sobre as espécies brasileiras, bem como dos ambientes onde elas vivem. Dessa maneira, o desenvolvimento de dissertações e teses de pós-graduação nessas linhas e a publicação de trabalhos em revistas renomadas e que contemplam essas abordagens certamente estariam como os principais parâmetros na análise da produtividade dos programas ligados à Área de Biodiversidade.

Infelizmente, a implantação dessa nova área a partir de uma ampliação da abrangência da Área de Ecologia e Meio Ambiente incorreu em um erro fundamental ao utilizar os mesmos parâmetros da antiga Área, levando à supervalorização das revistas com cunho ecológico em relação às demais linhas de pesquisa agora integradas à essa nova área. O Qualis produzido pela nova área elevou o patamar de corte das Revistas A1, utilizando ao invés do Índice de Impacto de 2,1 das Ciências Biológica I - câmara GBG, utilizado na avaliação de 2007-2009, para 3,0 na Área de Biodiversidade. Tal situação produziu uma distorção grave, pois na nova lista do Qualis, nenhuma revista da área de Botânica foi classificada como Qualis A1, enquanto a Área de Ecologia teve pelo menos 12 revistas específicas classificadas nessa categoria. A lista inclui distorções que favorecem nitidamente a Área de Ecologia, provavelmente devido a um julgamento desigual das revistas, em face do conhecimento específico dos pesquisadores que a elaboraram. Como exemplo podemos citar as revistas Evolucionary Ecology (índice de impacto = 2,398) e Evolution & Development (3,075) serem classificadas como A1, enquanto revistas como Oikos (3,393), Annals of Botany (3,388), American Journal of Botany (3,05) serem classificadas como A2, e Fungal Diversity (5,074) nem aparecer na lista de revistas da Área. Da mesma forma, revistas como Restauration Ecology (1,927), Ecological Entomology (1,852) e Austral Ecology (1,82) foram classificadas em A2, enquanto International Journal of Plant Science (2,364), Biodiversity and Conservation (2,146), Review of Paleobotany and Palinology (1,985), Botanical Journal of Linnean Society (1,931), Systematic Botany (1,897) e Annals of the Missouri Botanical Garden (1,80) foram classificadas em B1.

Com base no exposto, faço os seguintes questionamentos:

1. Qual a perspectiva de um programa de Botânica, analisado sob esses novos parâmetros, chegar ao nível 5? E a partir daí chegar ao 6 e 7?

2. Será que a Botânica do país não tem direito de ter programas nesse nível, especialmente se considerarmos que a Área encontra-se atualmente em um excelente patamar internacional? Exemplo disso foi visto nesse último Congresso Internacional de Botânica, realizado em Malbourne, na Austrália, em julho de 2011. O Brasil foi o quinto país em participação de delegados, atrás apenas da Austrália (sede do congresso), da China e Japão países próximos à sede do congresso e dos Estados Unidos, e teve participação importante na organização de simpósios, apresentação de palestras e de e-posters. Pela expressiva participação, o país foi convidado a apresentar uma proposta para sediar o XX Congresso Internacional de Botânica em 2023, após o Congresso de 2017, que será realizado na China.

3. Será que vale a pena para os botânicos investirem recursos e tempo para formação de taxonomistas e pesquisadores em outras subáreas relacionadas aos estudos da biodiversidade do Brasil, já que os trabalhos publicados específicos da botânica nunca estarão incluídos entre as revistas mais valorizadas da Área pela CAPES (Qualis A1)?

4. Qual a relevância do investimento de recursos e da pesquisa ligada a projetos financiados pelo governo brasileiro, como Instituto do Milenio do Semiárido, Programa de Pesquisa em Biodiversidade, Instituto de Excelência em Biodiversidade, PROTAX, REFLORA, SIMBIOTA, entre outros, se os produtos publicados a partir desses estudos não são valorizados?

Em razão do que foi exposto e

Considerando que apenas na metade do ano de 2011 (segundo ano da nova série para avaliação trimestral) tivemos conhecimento do novo qualis da área de Biodiversidade;

Considerando também, que pela nova lista as revistas mais expressivas da Área de Botânica foram rebaixadas de nível pelo Qualis apresentado;

Considerando também, que as revistas indicadas pelo subcomitê de BOZ das Ciências Biológicas I, não foram consideradas na nova área de Biodiversidade;

E especialmente, considerando, que a escolha e preparação de um trabalho com o escopo de uma determinada revista demora pelo menos um ano antes de sua publicação;

Faço as seguintes solicitações ao colegiado de PPGBot:

1. Que o colegiado utilize como critério para a solicitação de abertura de vagas para 2012 a indicação da classificação dos periódicos conforme os parâmetros apresentados pela Câmara de BOZ, constante do documento da Área de Ciências Biológicas 2009;

2. Que seja enviado um documento à CAPES colocando nossas posições e que seja feito contato com os outros coordenadores de pós-graduação da Botânica e talvez da Zoologia e Oceanografia Biológica, para que haja um encaminhamento conjunto em relação a essa situação;

3. Que seja feito contato com a Comissão de Pós-Graduação da Sociedade Botânica do Brasil, para que a sociedade se posicione nesse caso. Seria importante, também, o envolvimento da Sociedade de Zoologia.

Sendo o que se apresenta e colocando-me ao dispor desse colegiado para dar continuidade a essa discussão,

subscrevo-me atenciosamente

Ana Maria Giulietti Harley
Professora Permanente do Programa"