sábado, 29 de outubro de 2011

Profissão de Biólogo em Risco

Existe, atualmente, uma tendência para a separação entre biólogo bacharel e o biólogo licenciado, no sentido deste último profissional ser mais professor enquanto que o primeiro seria mais pesquisador científico. De fato, espera-se que antes do final desta década o professor de biologia seja uma profissão diferente do biólogo.
Este aparente contra-senso é apoiado por grossos setores da profissão de biólogo, o próprio conselho de biologia emitiu uma resolução (213/2010) onde até o ano de 2013 para ser profissional biólogo, o estudante terá que atingir 3200 horas de disciplinas dedicadas exclusivamente à biologia. Ao mesmo tempo, é amplamente defendido entre os educadores, que a formação do professor contemple o treinamento do pretendente a professor de biologia, como também reforce sua formação teórica, com mais base de disciplinas de cunho pedagógico. Existe inclusive uma legislação proveniente do Ministério da Educação e Cultura neste sentido.
Muitos, para defender tal separação levantam como argumento que outras profissões a distinção entre professores e bacharéis já é um fato, como os engenheiros agrônomos e os físicos.
Esta separação é um erro. Um erro tão evidente que chega a ser risível, se não fosse um trágico suicídio.
O profissionalismo em biologia nunca foi plenamente estabilizado. Na verdade, os setores em que o biólogo atua é amplamente invadido por diversos profissionais, como médicos, agrônomos e engenheiros florestais, todos com o apoio de poderosos conselhos profissionais. Ao mesmo tempo, os biólogos são impedidos de atuar em áreas do domínio destas profissões, mesmo que se mostrem competentes.
Essa invasão da profissão de biólogo está no cerne do grave declínio do mercado profissional, levando muitos para a prática escolar.
A separação entre as duas principais vertentes da profissão de biólogo, impedindo bacharéis de entrar na sala de aula e recusando a inscrição no conselho de biologia, é um atentado contra a profissão. Reduzirá de forma crítica o mercado e produzirá uma fissura, talvez irreversível, entre os próprios biólogos. Isso tudo sem mostrar de forma inequívoca as vantagens de tal atitude.
O processo desta separação está sendo feito de cima para baixo. São determinações do MEC que interferem severamente na autonomia da Universidade, exigindo mudanças curriculares dentro de padrões que não foram estabelecidos no seio da academia, ameaçando com a não concessão da autorização para o funcionamento do curso. É o Conselho de Biologia reconhecidamente incompetente na defesa do profissional biólogo, cuja face repressora e punitiva não é ocultada com a produção de um jornal de periodicidade esparsa e o boleto para o pagamento.
A transformação do curso de licenciatura em biologia em um curso de formação de professores de biologia, determinando a formação de um sub-biólogo, é a negação ao ensino fundamental de professores com conteúdo de excelência. A brutal restrição da carga horária das disciplinas produzirá professores dependentes da rede mundial de computadores e repetidores de livros didáticos, pois da forma que está sendo proposto, o professor não terá o discernimento necessário para construir o seu conteúdo a ser utilizado na sala de aula para a educação dos nossos jovens.
Na verdade, se não é a formação do biólogo o principal objetivo da reformulação de um currículo universitário de biologia e sim a formação do professor, então tal formulação curricular não pode ser feita no âmbito dos colegiados de ciências biológicas e sim nos colegiados de educação.
Contudo exigir que os colegiados de educação da estruturação de currículos profissionais é pedir demais. Os profissionais de ensino, ocultos em uma verborragia vazia, têm fracassado de forma assombrosa na formação básica. É amplamente conhecida, como resultado, talvez equivocado, da aplicação dos pressupostos do construtivismo, a geração de alunos pré-ginasianos praticamente analfabetos (cf. Araújo e Oliveira: Construtivismo e alfabetização um casamento que não deu certo em http://www.alfaebeto.org.br/documentos/construtivismo_alfabetizacao.pdf ou Catarina Gonçalves em http://www.psicopedagogia.com.br/opiniao/opiniao.asp?entrID=545).
Outra questão, que ainda não foi tocada, é a prática dos professores universitários, muitos, talvez a maioria, apenas bacharéis, cujo ensinamento pedagógico é restrito à suas experiências como alunos e à prática em sala de aula, onde são atirados sem qualquer preparação prévia. Esses profissionais, alguns entre os melhores biólogos do país, serão impedidos de ministrar aulas? Ou serão obrigados a retornar às salas de aula dos cursos de matérias pedagógicas?
O fato, cru, é que não são as disciplinas pedagógicas que formam os professores, nem as disciplinas apenas com conteúdo biológico formam excelentes bacharéis. Facilmente todos conseguem inúmeros exemplos para cada uma destas categorias: Licenciados péssimos professores, bacharéis péssimos pesquisadores, licenciados excelentes biólogos pesquisadores e bacharéis excelentes professores. As disciplinas executadas na universidade não são de determinantes para a qualidade do profissional, mas sim a iniciação científica, a participação em projetos de pesquisa, convivência com os colegas tanto em campo como na academia. As disciplinas por si só, sem essas atividades, não terão efeito positivo na prática profissional do biólogo.
Essa polêmica, gerada de cima para baixo e arremessada contra a autonomia das universidades, esconde problemas fundamentais, como o salarial. Se a escola básica não tem profissionais excelentes não é porque eles não estão sendo formados pela universidade, e sim porque estes profissionais conseguem salários melhores fora da escola básica. Para melhorar o nível do ensino nas fases mais fundamentais o caminho passa necessariamente por uma melhoria significativa no salário e na carreira do professor, sem esta modificação fundamental, atos como a separação radical entre bacharéis e licenciados, contribuirá apenas para a extinção do profissional biólogo.

Salvador, 29 out 2011.